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Monday, July 27, 2009

A mídia age como partido político

Boa parte da mídia brasileira é controlada por pessoas engajadas em algum órgão político. Seja o vereador que tem uma rádio, seja o prefeito que possui um jornal, esse controle exercido intensifica a frase “A mídia age como partido político”.

Pesquisando um pouco sobre o assunto, descobri um projeto chamado “Donos da Mídia” desenvolvido pelo jornalista Daniel Herz sobre a grande liberação de outorgas de rádio e TV promovida pelo governo do presidente José Sarney. Em menos de três anos, o presidente havia liberado 527 concessões e permissões de emissoras de rádio e TV. A maior parte para parlamentares que posteriormente votaram pela aprovação do quinto ano de seu mandato. Alguns dos resultados mostram em números a quantidade de veículos de comunicação e o controle deles por políticos de determinados partidos políticos e é a partir desse ponto de vista que se nota como as informações passam por um processo de filtragem ou censura quando o assunto é interesse público.

Dessa forma, a mídia privada além de tratar os interesses privados, vai também expor os interesses públicos de forma privada quanto ao seu conteúdo, ao seu direcionamento, ou a maneira pela qual eles são analisados.

Veja um caso recente sobre o de diploma de jornalismo que ilustra bastante o pensamento anterior:

É de se estranhar o pequeno destaque dado pelas principais mídias brasileiras a um assunto tão polêmico quanto esse. As consequências da suspenção da lei de imprensa e da não obrigatoriedade do diploma, podem afetar profundamente o dia-a-dia das empresas de comunicação e da relação delas com o público. Justamente por isso, era de se esperar um grande número de informações sobre o tema, munindo os leitores em busca de reflexão, a fim de provocar um verdadeiro debate na sociedade. No entanto, nada disso aconteceu, foram publicadas matérias pequenas e superficiais. O papel do jornalismo, de defender o interesse público, neste caso, não foi cumprido.
Perceba que a mídia age como partido político, de acordo com o pensamento Gramsciniano, na medida em que influi, com ênfases e enfoques determinados, na formação da opinião pública e nos modos de assimilação dos acontecimentos.
No caso do diploma de jornalismo, ela tratou o assunto dando um viés simplesmente informativo como se a população não precisasse se preocupar com tal medida, afinal o assunto não foi colocado em posição de destaque. Ela tratou um assunto de interesse publico, mas não como interesse público. Deixando claro que excluo a internet dessa mídia, pois esta propõe muitos debates a cerca do assunto.
Quando falo que a mídia age como partido político preciso destrinchar mais precisamente de que forma ela atua para se afirmar tal relação.
Nos partidos políticos temos um teor ideológico, que como já foi mencionado através do conceito de Gramsci supõe-se um conjunto de idéias originadas de um mesmo grupo que transcende o conhecimento e se liga diretamente com a ação voltada para influir no comportamento dos homens. Ou seja, quando um partido político composto por homens elabora um conjunto de idéias, é porque eles acham que esses são os principais pensamentos para se discutir em sociedade e serem aplicados. Só que esse conjunto não aborda todos os lados de um tema, ele possui uma carga ideológica que não precisa ser necessariamente vista como negativa, mas que traduz o que eles acham que se adequa melhor à sociedade ou aos seus interesses em detrimento de outras posições ideológicas.

Sendo assim a mídia age do mesmo modo. Ela tem um teor ideológico e econômico, através dessa ideologia, que geralmente quando falamos de Brasil, se traduz numa mídia conservadora, mantendo os pensamentos da classe hegemônica, percebe-se que o discurso é sempre calcado nesses pilares. Por exemplo, se falamos de homossexualismo, temos que tratar de um modo que não choque os padrões existentes, ou damos um viés inteiramente elaborado para se opor a essa opção sexual, não que prolifere o preconceito, mas que o mascare e dê um outro significado para se tornar menos impactante.

Fazendo uma outra ligação vemos também assuntos serem omitidos ou passados despercebidos por esses meios. Não é puro esquecimento. Há uma seleção de temas para que o público mantenha-se informado sobre tudo, mas com pouco nível de reflexão. Se existe um meio tão poderoso de propagação de informação esse é a mídia, mas essa não faz parte da sociedade como instrumento de atuação. A mídia é controlada por corporações e são essas corporações ou estes grupos que tem o poder de fala. A corporação controla, define o que é notícia e o que não é notícia. A corporação tem um poder tremendo de selecionar os fatos, de divulgar os fatos de acordo com os interesses corporativos. E dá para esses fatos a aparência de fatos públicos, quando na verdade são fatos dados de forma privada. Ela é movida por interesses ideológicos, financeiros, econômicos, interesses capitalistas.

São as classes que controlam os meios de comunicação. A mídia funciona na verdade como uma espécie de intelectual orgânico da burguesia, para utilizar um termo de Gramisci. Ela organiza os interesses da burguesia, dá-lhes visibilidade, debate-os, e aponta soluções para os interesses da burguesia.
Em alguns países capitalistas, como os Estados Unidos, por exemplo, você tem certas leis que ainda tentam impor um certo controle às corporações. Os EUA têm uma lei que impede a propriedade cruzada dos meios de comunicação. Então, o sujeito que é dono da televisão de uma determinada região não pode, ao mesmo tempo, ser dono de um jornal impresso nem de emissora de rádio. Isto é proibido. Se for dono de uma emissora de rádio não pode ter televisão, nem jornal. No Brasil essa lei não existe, e o sistema contribui para que sejam asseguradas as corporações. Esse poder controla as idéias e o espaço de informação acaba sendo restringido a um único grupo ideológico. Não há espaço para divergências de idéias.
No entanto, certas pautas acabam entrando no jornal mesmo contra a vontade dos donos, porque tem que manter uma certa credibilidade. E isto cria um problema para os donos, porque eles não podem mentir ou omitir o tempo todo. E aí é que se dá um espaço de luta na mídia, que permite que jornalistas sérios trabalhem nos grandes veículos. Porque esses veículos precisam de jornalistas sérios que dêem credibilidade, mesmo que às vezes eles produzam coisas que no momento vão contra os interesses dos jornais. Só que esses assuntos não vão ter o viés que deveriam ter, mas pelo menos estão na agenda da mídia.
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