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Friday, September 11, 2009

Caster Semenya é hermafrodita. E daí?

Hoje foi anunciado em vários jornais que a atleta africana Caster Semenya é hermafrodita.
Exames realizados durante o Mundial de Berlim comprovaram o fato. Semenya não possui ovários, apesar de na aparência externa apresentar órgão sexual feminino, no entanto, ela possui testículos internos "escondidos", que produzem grande quantidade de testosterona.

Esse caso é engraçado porque mostra até onde vão os limites do ser mulher e do ser homem em nossa sociedade. Para a atleta nesse caso, ser considerada do sexo feminino ela teria que possuir por completo o aparelho sexual pertencente à categoria.

Mas daí voltamos aquela velha discussão básica apoiada nos atuais conceitos de gênero. Será que para ser mulher realmente precisamos desse aparelho, ou esta classificação não passa de um conjunto de valores culturais e sociais que determinam quem somos diante dos olhos alheios?

O hermafrodita está aí mesmo para provar que muitas discussões ainda devem ser feitas sobre do assunto. Caster Semenya considera-se mulher. Até antes desse exame, quando suspeitavam de seu sexo, ela tratava o assunto como brincadeira. A moça foi criada, educada, tem comportamentos culturalmente e socialmente dotados como femininos, então porque não considera - lá enquanto mulher?
Um dos depoimentos mais curiosos é do secretário-geral da Iaaf, Pierre Weiss, ele disse que Semenya é mulher, mas que talvez não seja 100%. Esquisito, não? O que faz de um ser humano 100% homem ou 100% mulher, senão os próprios meios de classificação que colocamos numa notinha para apontarmos, esse é isso, esse é aquilo. É mais ou menos assim. Para ser mulher, deve-se ter o aparelho sexual feminino completo, ser sensível, frágil, delicada, bem educada, que não exale odor nem sinta necessidades sexuais.
Ah...gente! Estamos no século XXI, esse papinho antiquado não cabe mais aqui. Quer dizer, se a moça não for considerada moça porque possui testículos internos ela não vai mais competir, ou pior, vai competir na categoria masculina? Engraçado também é notar que a presença da vagina  não lhe qualifica em nada como mulher, afinal, quando as pessoas julgam pelo sexo é sempre pela presença ou não do pênis, testículo seja mais o que estiver do outro sexo, agora se ela possui vagina ou não isso não é discutido ou levado em consideração. Afinal, como diria Simone de Beauvoir, somos o segundo sexo.
Imagine a complicação que não vai se passar pela cabeça de Semenya? Eu sou homem? Eu sou mulher? O que importa isso afinal? Ela competir ou não numa categoria “certa”? E o constrangimento de toda essa notícia? Não influi na sua vida pessoal também? Não vi nos noticiários se ela possui um parceiro ou parceira, não sei se é heterossexual ou homo. Mas se tiver um relacionamento com um rapaz, e se ele for bastante preconceituoso, como vai ficar a situação da moça? Fora as piadinhas que ela não vai agüentar ter que ouvir todos os dias.

Eu espero que ela não tenha que parar de correr por causa de uma simples categoria. Tudo bem que vão levar em conta as doses de testosterona, porque pode deixá-la com uma vantagem a mais sobre as outras mulheres, mas até que ponto ela realmente tem essa vantagem?

 Para que todas essas perguntas sejam respondidas são necessários estudos que comprovem se isso afeta ou não a competição. Mas, eu acredito, que o mais importante é que se Semenya se considera mulher, ela teria de competir com mulheres, mesmo tendo uma estrutura física semelhante ao corpo masculino.
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