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Wednesday, September 2, 2009

Mais um caso de machismo nos jornais: A professora que dançou o "todo enfiado" e perdeu o emprego

Hoje vou tratar de um assunto que vem tendo grande destaque nos jornais e noticiários da Bahia: O caso da professora Jaqueline Carvalho.

Para quem ainda não sabe ou ouviu falar do polêmico assunto, tudo aconteceu porque uma professora do colégio particular Objetivo de Salvador estava dançando de forma erótica a música “Todo enfiado” da banda “O Troco”.

A questão que está sendo posta na sociedade e também sendo questionada através dos veículos de comunicação é como uma professora pôde ter tido tal atitude, tendo a profissão que tem. O ponto de vista concentra-se em uma afirmativa: a postura que ela tomou foi visto como “coisa de puta”.
Como todos sabem, o professor é o maior responsável pela educação das crianças. É ele que vai transmitir valores e conhecimentos que ajudará na formação dos indivíduos. Quando, uma professora dança de forma erótica, de acordo com o julgamento dessa sociedade, ela vai também passar para os filhos dessa classe média, o outro lado que ela vive do além professor.
No entanto, eu enxergo isso de outra forma. Primeiro, tem-se que analisar a música envolvida. As pessoas estão julgando a professora que estava no ritmo da música. E o conteúdo da letra, porque as pessoas não comentam sobre? Os jornais, revistas, nenhum repórter ousou criticar a mensagem da música, pelo contrário, ou foi posta de lado, como se o caso fosse isolado, ou foi tratada como mais um dos turismos baianos, cheguei a ver um jornal, como o Correio da Bahia, fazendo propaganda de onde a banda se apresentaria nos próximos dias.

Então vamos lá. A letra da música segue abaixo


Todo Enfiado
Autor: Mário Brasil



A morena já disse, é:
E aê rapazeada, não importa o tamanho, o que importa é a qualidade. E elas gostam é todo enfiado.
E tem mulher que usa P, tem mulher que usa M,Tem mulher que usa G, e a outra é GG.
E tem mulher que usa P, tem mulher que usa M,Tem mulher que usa G, e a outra é GG.
E tem mulher que usa P, tem mulher que usa M,Tem mulher que usa G, e a outra é GG.
E tem mulher que usa P, tem mulher que usa M,Tem mulher que usa G, e a outra é GG.

A piriguete anda com o fio só todo enfiado, todo enfiado, todo enfiado, todo enfiado, todo enfiado, todo enfiado, todo enfiado, todo enfiado, todo enfiado, todo enfiado, todo enfiado, todo enfiado, todo enfiado, todo enfiado, todo enfiado, todo enfiado, todo enfiado, todo enfiado, todo enfiado, todo enfiado, todo enfiado
"Olha o molho aí!"

Ela chega no pagode chamando atençãotomara que caia ... e o celular na mãoas mulheres no pagode tão com o bicho no chão!mas essa mina té com o fio só todo enfiadotodo enfiado, todo enfiado, todo enfiado, todo enfiado, todo enfiado, todo enfiado, todo enfiado, todo enfiado, todo enfiado, todo enfiado, todo enfiado, todo enfiado, todo enfiado, todo enfiado, todo enfiado, todo enfiado, todo enfiado, todo enfiado, odo enfiado!olha o P, olha o M, olha o G

E tem mulher que usa P, tem mulher que usa M,Tem mulher que usa G, e a outra é GG.E tem mulher que usa P, tem mulher que usa M,Tem mulher que usa G, e a outra é GG.E tem mulher que usa P, tem mulher que usa M,Tem mulher que usa G, e a outra é GG.E tem mulher que usa P, tem mulher que usa M,Tem mulher que usa G, e a outra é GG.mexe pra mim!

Ela chega no pagode chamando atenção...Tomara que caia e o celular na mão.As mulheres no pagode tão com o bicho no chão!As mulheres no pagode tão com o bicho no chão!Essa mina ta com o fio assim, todo enfiadoOlha o troco heinÉ todo enfiado, "mãezonas"!Eu vi, hein!A piriguete anda com o fio só todo enfiado, todo enfiado, todo enfiado, todo enfiado, todo enfiado, todo enfiado!Mexe pra mim

Como está registrado acima, a música trata de mulheres que usam calcinhas de tamanho P, M ou GG, mas que as piriguetes andam com um fio só e “todo enfiado”, e o bom que é elas vão no pagode e dançam para os homens mostrando o fio.

Não é nada mais que uma das muitas músicas de pagode retratando a mulher de forma pejorativa, afinal, a banda fala que a “piriguete” (puta, namoradeira, saidinha...) é quem usa o fio dental. Bom, se retratarmos a letra e jogar no contexto da professora, ela estava dançando de vestido, com o fio dental, e quando o cantor puxou a calcinha até em cima, ficou “toda enfiada”, o que quer dizer, de acordo com a letra, que quem usa o fio dental é “piriguete”.
A dança, não é nada mais do que sempre há em Salvador, pagode com homens e mulheres descendo até o chão de maneira erótica. Pra mim não há surpresa nenhuma nisso, a única diferença é que tinha uma professora dançando e quase nua, por causa da calcinha. Mas se formos analisar tempos atrás e até hoje em dia, as dançarinas dos grupos de pagode se vestem quase todas com short que parecem calcinhas e deixam metade das nádegas a mostra. Dançam da mesma forma que a professora, rebolando de forma sensual, então qual o espanto nisso? O que há de diferente para ganhar tal destaque? Estou procurando até agora...

Muitas pessoas estão chocadas com o que viram, o vídeo realmente tomou uma proporção de visitas no youtube imensa, além de circular nos emails e no boca a boca. No entanto, a maior questão é: uma professora que dança dessa forma pode transmitir conteúdo às crianças?


Bom, se ela estudou, se formou, foi avaliada e está apta a ensinar, é claro que ela não vai fazer mais do que o papel dela de educador, ou as pessoas estão achando que Jaqueline Carvalho vai dançar o “todo enfiado” na sala? Ou melhor, vai tratar de assuntos relacionados a “piriguetagem” com as crianças?


Sabem qual está sendo também a maior preocupação? É na educação das meninas. Em uma determinada comunidade do orkut vi homens falando que os filhos dele poderiam estudar com ela tranquilamente, mas que as meninas não. Sabe por que? Isso tudo está ligado a um simples quesito em nossa sociedade, o machismo. É obvio. Um dos maiores caso de machismo que vi ganhar destaque atualmente na imprensa foi o dessa moça. Coitada. Porque chegou lá, dançou o que a letra pedia, hoje, está em todos os jornais, e teve que se mudar de casa, porque no bairro onde morava, estava sendo rechaçada, e ainda por cima, perdeu o emprego.

Vamos lá, que sociedade contraditória essa. A mesma que repudia a Jaqueline hoje, é a mesma que ensina os filhos e filhas a dançarem o “pagodão”, ralando até o chão.

Toda vez que uma mulher inserida no contexto familiar tem alguma ação dita como “piriguete” é motivo de perseguição. Essa notícia, ridícula, só está em pauta porque se tratou de uma professora.

No mesmo dia, e desde que a banda “O troco” apresenta-se nesse local, outras moças também dançaram da mesma forma. Mulheres que estão de calça e short abrem a roupa e ficam quase nuas. Por que ninguém também as cita? Não, elas são “pirigutes” e “piriguetes” podem fazer o que desejam, portanto que elas não se misturem com as “santas” da classe média e alta.
Enfim, eu acho que consegui retratar o pouco de minha angustia com esse caso. A Jaqueline foi mais uma vítima do machismo ferrenho brasileiro. A principal questão a se perceber nessa história toda é o que as músicas, sobretudo, de pagode dizem hoje. É certo ter músicas sujando a imagem da mulher? Rebaixando-as até o pior nível? Já vi músicas em que bater em mulher é bom...O ponto chave na questão é se fazer entender porque isso não é visto, a música está aí, todo mundo está cantando, dançar é que não pode? Essa dubiedade de fatos são até engraçados...Quer dizer, a menina pode cantar o “rala a tcheca no asfalto, o todo enfiado...” o que mais existir, mas dançar, ela não pode.
Outra cosia que também não vi ninguém discutindo é sobre o poder da imagem e o controle dessas. Por mais que a atitude da professora tenha sido julgada como errada, ninguém tem o direito de reproduzir imagens e publicá-las sem o consentimento da pessoa. É questão de direitos. Então, a pessoa está lá, toma todas, fique bêbada, dança do jeito que quer, e depois vira comédia na internet?

Não é assim que as coisas funcionam. O mesmo caso foi o da Cicarelli, que em um momento super normal, foi filmada e retratada no youtube da “melhor” forma possível.

Quando eu vi o vídeo pela primeira vez achei um absurdo aquilo acontecer, nessa época, ainda nem sabia que a moça era professora. Achei absurdo por saber todo o contexo que a mulher está inserida. Por saber que para se ganhar fama ou sucesso, sendo mulher, não importa o pensamento que tenha, ela é vista através da "bunda" ou do padrão de beleza que segue. Na mesma hora passou um filme na minha cabeça, de tudo que alguma mulheres tem que fazer para aparecer. Na culpo a moça. De forma alguma. A nossa cultura nos ensina a ser assim. Quando falam, use uma sainha mais justa, dê escova no cabelo, passe maquiagem, é justamente para sermos apenas objeto. Um mero fantoche. E Jaqueline foi mais uma mulher que talvez, tenha feito isso tudo de propósito, para ter fama através do meio mais fácil para sermos vista, ou o do apêlo sexual ou da beleza.

O moralismo social, o machismo, tudo junto consegue confundir a gente e desviar a nossa atenção pra outros aspectos que não os que realmente deveriam ter destaque. O pior nisso tudo é saber que nós, mulheres, a todo o momento estamos sendo julgadas ainda como nos tempos da inquisição.
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