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Monday, September 21, 2009

"Zonas Úmidas" um livro para quem gosta de vagina

Eu estava ansiosa para que o meu livro chegasse. Na verdade “Zonas Úmidas” de Charlotte Roche foi um livro encomendado às cegas. Eu sabia que era um livro revolucionário pelo pouco do conteúdo que ouvi falar, mas não sabia que era tanto.



É um romance que trata de uma garota de 18 anos que está prestes a ser operada no ânus. Enquanto a história passa totalmente no hospital ela narra todas as suas fantasias sexuais e experiências que não são nada comuns de ouvir, principalmente vindas de uma mulher.


Parece preconceituoso o meu tom, mas não é. Na verdade quando o assunto é sexo e vagina a gente tem sérios problemas para contar escancaradamente como faz, no entanto, a personagem Helen.


Imagine, uma garota de 18 anos que diz ter orgulho de começar as suas relações sempre pelo sexo anal? Ou melhor, apresentar-se a um homem com um corte na calcinha para que ele quando a toque saiba que ela já quer ir para cama e não ficar só nos beijinhos.



O livro é excepcional porque rompe justamente com a censura das palavras. O quem tem que ser dito será, e nos mínimos detalhes.


Mas não é só de sexo que a autora trata, o livro, sobretudo traduz experiências femininas com o corpo. A maioria das mulheres tem vergonha de falar sobre a sua vagina, ou de mostrá-la como os homens fazem. O maior exemplo é quando eles vão ao banheiro e sem constrangimento podem urinar um ao lado do outro. No entanto, com as mulheres o caso é diferente, duas amigas quase nunca se vêem peladas, os seios até podem ser vistos, mas a vagina... é complicado.


Tudo provém da educação que recebemos. Qual mulher foi ensinada a pegar um espelhinho e bisbilhotar o que tem lá embaixo? Ou melhor, será que as mulheres conhecem de fato a vagina que possuem? Não, raramente se vê algo desse tipo. Essa fala lembrou-me um episódio do seriado “The L Word” em que várias amigas estão juntas num sofá com as pernas abertas e espelhinhos nas mãos examinado seus órgãos genitais. A primeira vez que vi a cena, achei o máximo, porque isso é totalmente surreal, pelo menos na minha vida. Em qual reunião de amigas vai acontecer algo desse tipo? Nunca!


Mas voltando ao livro...A autora consegue nos transportar para vários dos momentos que temos de intimidade com o nosso corpo que por vergonha não conseguimos falar. É o caso do esmegma feminino. Toda mulher possui um tipo de secreção vaginal ao longo do dia. É um muco que ás vezes fica amarelado, ás vezes fica branco e gruda na calcinha. O chamado esmegma. Esse muco é tido como algo nojento, digno de vários atos de limpeza pela mulher. No entanto, a personagem não se incomoda com a sua secreção, pelo contrário, ela adora, acha super feminino e garante que o cheiro do muco provoca mais excitação ainda nos homens, por isso ela o utiliza como perfume nos cantinhos atrás da orelha.


Parece nojento, não? Mas o fato é que o livro é totalmente exagerado, claro que ninguém vai fazer algo do tipo. Contudo, essas palavras e apreciação do nosso órgão faz com que não tenhamos nojo dele. Não é só do esmegma que ela fala, mas também da menstruação, dos pêlos pubianos, etc. Tudo que para nós é associado à falta de higiene, para Helen tem um ponto positivo, até as casquinhas de feridas viram lanche para ela.


É impressionante como ela ama a sua vagina. Você já ouviu alguém falar nisso? Que ama o cheiro, a textura, a cor e até a menstruação? Pois é, eu não, mas a personagem é assim, uma amante do sexo feminino. Muito curiosa, Helen tem vontade de examinar as vaginas alheias, mas ela tem vergonha de pedir as suas amigas, e por isso, de vez em quando, vai ao bordel pagar pelos serviços de prostitutas para poder tocar e sentir a vagina. Ela fica encantada pelas vaginas negras, porque a cor escura realça o tom vermelho-rosado do interior. Ela fica tão encantada, que para imitar as negras, ela usa maquiagem na vagina, como não há maquiagem destinada às partes baixas, ela usa a do rosto mesmo. Ri horrores com isso.

Outro ponto legal no livro é ódio que ela tem das indústrias de absorvente, para ela toda mulher precisa ter criatividade para criar o seu próprio obstáculo contra o sangue, e por isso quando percebe que está menstruada numa cama de hospital, logo após uma cirurgia no ânus, a garota cria um absorvente com papel e impede a saída do líquido vermelho.


Bom, eu frisei vários pontos deste livro porque ele tem uma dimensão bastante feminista. Afinal, é um romance que conta nos mínimos detalhes o que é possuir uma vagina. E a autora Chalotte Roche soube fazer muito bem essa bela descrição.

Os críticos estão falando de um surgimento de um neo-feminismo com essa abordagem. Eu não concordo com o título. Tudo que tem “neo” de prefixo me remete ao nazismo eu prefiro não fazer essas analogias loucas que passam pela minha cabeça.


O livro “Zonas Úmidas” é um tipo de feminismo como qualquer outro que prega a libertação da mulher, seja na fala, no sexo, ou em qualquer outro sentido. Eu li uma entrevista da autora e confesso que fiquei decepcionada, porque a Charlotte faz várias afirmações que demonstram total desconhecimento do movimento, principalmente quando ela fala “Sou uma jovem feminista. E o grande problema com o feminismo é que as velhas feministas odeiam as novas. Mas sou “filha” delas – queiram ou não”.

As feministas não se odeia, o que é isso? É guerra é? Claro que não, o problema é que ela mesma generaliza “o feminismo” como se fosse único, sendo que existem vários tipos e que cada um tem o seu esclarecimento. Pode ser que as feministas antigas não concordem com alguns dos feminismos atuais, mas ao falar que elas se odeiam, Roche cai numa tremenda contradição.

Um outro depoimento seu que me deixou chocada foi quando ela fala sobre as feministas lésbicas. Em suas palavras Roche afirma que acha muito difícil as lésbicas emitirem opiniões sobre como uma heterossexual deve tratar um homem. Veja um trecho de seu pensamento:

“Uma lésbica obviamente não entende de pornografia, porque é uma coisa heterossexual. E se há um jogo entre um homem e uma mulher, e mesmo se isso é agressivo, ou um jogo “sadomaso”, ou o que for, é entre homem e mulher. Muitas vezes, as feministas estão lutando contra os homens. E elas sempre pensam que fazer sexo com um homem ou calçar um salto alto para um homem é idiota. Como heterossexual, eu quero que o homem me ache atraente. Então, eu calço salto alto e assisto a pornôs com meu marido. Mas as feministas odeiam os homens. Esse é o grande problema. E as jovens feministas estão tentando ter uma relação de amizade com os homens, e não brigar com eles.”.

Portanto, há de se concordar que isso tudo é meio exagerado, como seu livro também o é. Roche parece quebrar com anos de luta afirmando frases do tipo “feministas odeiam homens”. Na verdade quem odeia os homens são as femistas e não as feministas. É preciso falar que femismo é o mesmo que machismo só que de mulher, e feminismo não, é a luta pela igualdade de direitos não há sexismo presente nessa definição.


Por isso achei muito fraquinho sua fala. Quando li o livro achei a autora fantástica até porque não há essas bobagens no livro. A história é muito feminista e muito legal, mas ao ver a entrevista realizada pela revista Época fiquei triste por pensar que a autora era magnífica enquanto feminista, mas vi que não é. Pelo menos como autora ela é maravilhosa. Espero que ela se aprofunde mais no assunto para não falar tantas bobagens em entrevistas e as pessoas acabarem achando e rotulando, como sempre, que as feministas só querem briga e nunca se entendem. O que não é verdade.


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