Parece preconceituoso o meu tom, mas não é. Na verdade quando o assunto é sexo e vagina a gente tem sérios problemas para contar escancaradamente como faz, no entanto, a personagem Helen.
O livro é excepcional porque rompe justamente com a censura das palavras. O quem tem que ser dito será, e nos mínimos detalhes.
Mas não é só de sexo que a autora trata, o livro, sobretudo traduz experiências femininas com o corpo. A maioria das mulheres tem vergonha de falar sobre a sua vagina, ou de mostrá-la como os homens fazem. O maior exemplo é quando eles vão ao banheiro e sem constrangimento podem urinar um ao lado do outro. No entanto, com as mulheres o caso é diferente, duas amigas quase nunca se vêem peladas, os seios até podem ser vistos, mas a vagina... é complicado.
Mas voltando ao livro...A autora consegue nos transportar para vários dos momentos que temos de intimidade com o nosso corpo que por vergonha não conseguimos falar. É o caso do esmegma feminino. Toda mulher possui um tipo de secreção vaginal ao longo do dia. É um muco que ás vezes fica amarelado, ás vezes fica branco e gruda na calcinha. O chamado esmegma. Esse muco é tido como algo nojento, digno de vários atos de limpeza pela mulher. No entanto, a personagem não se incomoda com a sua secreção, pelo contrário, ela adora, acha super feminino e garante que o cheiro do muco provoca mais excitação ainda nos homens, por isso ela o utiliza como perfume nos cantinhos atrás da orelha.
Parece nojento, não? Mas o fato é que o livro é totalmente exagerado, claro que ninguém vai fazer algo do tipo. Contudo, essas palavras e apreciação do nosso órgão faz com que não tenhamos nojo dele. Não é só do esmegma que ela fala, mas também da menstruação, dos pêlos pubianos, etc. Tudo que para nós é associado à falta de higiene, para Helen tem um ponto positivo, até as casquinhas de feridas viram lanche para ela. É impressionante como ela ama a sua vagina. Você já ouviu alguém falar nisso? Que ama o cheiro, a textura, a cor e até a menstruação? Pois é, eu não, mas a personagem é assim, uma amante do sexo feminino. Muito curiosa, Helen tem vontade de examinar as vaginas alheias, mas ela tem vergonha de pedir as suas amigas, e por isso, de vez em quando, vai ao bordel pagar pelos serviços de prostitutas para poder tocar e sentir a vagina. Ela fica encantada pelas vaginas negras, porque a cor escura realça o tom vermelho-rosado do interior. Ela fica tão encantada, que para imitar as negras, ela usa maquiagem na vagina, como não há maquiagem destinada às partes baixas, ela usa a do rosto mesmo. Ri horrores com isso.
Bom, eu frisei vários pontos deste livro porque ele tem uma dimensão bastante feminista. Afinal, é um romance que conta nos mínimos detalhes o que é possuir uma vagina. E a autora Chalotte Roche soube fazer muito bem essa bela descrição.
Os críticos estão falando de um surgimento de um neo-feminismo com essa abordagem. Eu não concordo com o título. Tudo que tem “neo” de prefixo me remete ao nazismo eu prefiro não fazer essas analogias loucas que passam pela minha cabeça.
As feministas não se odeia, o que é isso? É guerra é? Claro que não, o problema é que ela mesma generaliza “o feminismo” como se fosse único, sendo que existem vários tipos e que cada um tem o seu esclarecimento. Pode ser que as feministas antigas não concordem com alguns dos feminismos atuais, mas ao falar que elas se odeiam, Roche cai numa tremenda contradição.
Um outro depoimento seu que me deixou chocada foi quando ela fala sobre as feministas lésbicas. Em suas palavras Roche afirma que acha muito difícil as lésbicas emitirem opiniões sobre como uma heterossexual deve tratar um homem. Veja um trecho de seu pensamento:
Portanto, há de se concordar que isso tudo é meio exagerado, como seu livro também o é. Roche parece quebrar com anos de luta afirmando frases do tipo “feministas odeiam homens”. Na verdade quem odeia os homens são as femistas e não as feministas. É preciso falar que femismo é o mesmo que machismo só que de mulher, e feminismo não, é a luta pela igualdade de direitos não há sexismo presente nessa definição.
Por isso achei muito fraquinho sua fala. Quando li o livro achei a autora fantástica até porque não há essas bobagens no livro. A história é muito feminista e muito legal, mas ao ver a entrevista realizada pela revista Época fiquei triste por pensar que a autora era magnífica enquanto feminista, mas vi que não é. Pelo menos como autora ela é maravilhosa. Espero que ela se aprofunde mais no assunto para não falar tantas bobagens em entrevistas e as pessoas acabarem achando e rotulando, como sempre, que as feministas só querem briga e nunca se entendem. O que não é verdade.