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Monday, October 19, 2009

Memórias de uma tarde artística

Estou eu e minhas amigas numa praça. Conversando. Rindo.
Talvez, essa simples reunião não fosse possível há alguns anos atrás.

Por que?

Ora! As mulheres não tinham liberdade para conversar sem permissão do pai ou marido. Muito menos de sair. Agora mais incrível ainda é nós estarmos naquele ambiente e uma outra moça chegar vendendo sua arte sensual.

A pele em flor


Eis-me aqui ao seu dispor,
Nua, crua, íntegra...
Eis-me aqui com boca sedenta de beijos ardentes.
Com olhos ofuscantes,
Com a pele em flor.
Exalando um perfume que é só meu,
E seguindo vou em busca de ti
E sonhando vou em busca de mim.
Eis-me aqui em meu pranto
Em meu canto calada e só.
Com a certeza de uma incerteza
Com a verdade de uma ilusão,
Com a alma em vida,
Com a vida em utopias,
E assim continuar aqui em meu canto calada e só.


Hyl Lorraine Rangell



Lorraine é uma artista feirense que conheci na praça de alimentação da Getúlio Vargas, em Feira de Santana, vendendo pequenos livrinhos feitos com papel A4. São nove tipos de diferentes, cada um com suas experiências e sentimentos de vida. Ela contou-me que tentou publicar um livro reunindo todas as suas obras, mas tinha de desembolsar quatro mil reais para isso. Dinheiro este que ela não tem.

Fiquei triste, de ler poesias tão bonitas e criativas de uma artista que não tem apoio financeiro. Pensei em quantas pessoas devem existir não só aqui na minha cidade, como no Brasil inteiro produzindo arte e talvez, sendo esquecida por falta de apoio.

Hyl Lorraine é um exemplo de resistência, mesmo quando não conseguiu publicar os livros, passou a imprimir as poesias em papel comum e divulga-las pela cidade a fora por apenas um real. E o esforço de sua criatividade? E os gastos com o papel? Tempo.

O artista tem que ser valorizado. Eu fiquei fã de suas poesias. Pedi que ela recitasse para mim e as minhas amigas, e ela assim fez. Pausadamente. Loucamente perdida em suas palavras. Foi um momento único. Onde o artista externa sua obra e também seus sentimentos.

Eu e minhas amigas a ajudamos. Compramos alguns de seus livrinhos. E como estávamos brincando de pagar mico na praça, uma das prendas foi vender o livrinho para alguém, o que não é mico, mas uma forma de ajudar. E uma de nós, a Carol, conseguiu vender um. E de que forma?

Ela chegou na mesa, onde estava apenas um rapaz. E perguntou:

- Olá, você tem namorada?

O rapaz respondeu:

- Não

- Se você comprar este livrinho, pode conseguir uma recitando poesias de amor.



Achei lindo isso! Esse dia foi realmente incrível. Eu tinha que registrar. Afinal, todas essas atitudes só foram possíveis de serem realizadas hoje, por causa da luta feminista. E é esta que me comove todos os dias.
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