Ir ao teatro é algo encantador quando a peça te proporciona revelações ou um encontro consigo mesmo.
Ontem eu fui assistir à peça “Meu caro amigo – Uma história embalada pelas canções de Chico Buarque”. Um monólogo interpretado pela atriz Kelzy Ecard.
A narrativa se concentra na vida da personagem Norma, que é apaixonada por Chico Buarque. Além da declaração de amor pelo cantor, a história revela acontecimentos da época da Ditadura Militar no Brasil. Ou seja, somos embalados pela belíssima voz da atriz e cantora e ainda temos uma nada cansativa aula de história recente.
Como sou novinha, e não passei pela época da censura à narrativa pra mim se torna algo inovador e alucinante.
A Norma, tinha um fã clube chamado de “Chiquetes”, elas se reuniam sempre para bolar o que fazer para divulgar as músicas do Chico Buarque e ter um acervo próprio com todos os discos, ou outros produtos produzidos pelo Chico, além de informações publicadas a respeito do artista. Só que quando o AI 5 foi instalado, elas não podiam mais se reunir, o pai de Norma sempre falava: “Vocês vão ser presas!”. Afinal, a liberdade era vigiada, qualquer grupinho visto nas ruas já era presumido como um principio de atividade de natureza política ou algo que fosse contra aos ideais dos militares.

E o engraçado também foi ver minha mãe rindo e se identificando com algumas passagens de seu tempo. A Norma, logo no começo, narra o dia em que os pais dela compraram uma televisão. Mas naquele tempo a imagem era preto e branco, e sintonizar o canal dava o maior trabalho, pois o pai dela tinha que ficar em cima do telhado para alguém assistir algum programa na sala. Em outro momento, ela falou sobre uma tela que era comprada nos camelôs. Essa tela tinha três tons de cores, era colocada em frente a tela da TV para dar a impressão de que a imagem era colorida, daí ficava o apresentador de um jornal, por exemplo, com a cabeça vermelha, o corpo verde, e o final da tela azul. Chorei de rir com isso. E minha quase gritando: “Eu tive uma dessas, eu lembro disso”.

Ás vezes eu fico imaginado como será eu mais velha, lembrando de coisas que eu fazia no passado. Assim, como a minha mãe, de muitas coisas que evoluíram. Claro que eu já consigo citar algumas: como a fita de música, vinil, vídeo cassete...Mas sei que mais pra frente as mudanças serão maiores ainda, e essa nostalgia me encanta tanto quanto me deixa triste, pois traz saudades.
Mas voltando a peça. É pela televisão também que a Norma conhece o Chico, por isso ela acredita em amor a primeira vista. Porque foi assim que começou o caso dela com o cantor. Eu gostei bastante o toque de humor que a atriz consegue adaptar sem ser algo forçado ao mesmo tempo em que se emociona quando retrata a convivência com o pai, já que eles não se davam bem ao ponto dela ter que sair de casa.

Uma das partes também que mais chamou a minha atenção foi um diálogo dela com o pai. Em que ela dizia que ele fingia não ver as coisas que ela fazia como ir dormir com o namorado em um acampamento. No entanto, teve um dia que ela não queria mais compartilhar esse fingimento e resolveu colocar todas as suas angústias para fora. Ela disse para ele que ia acampar com o Pedro (o namoradinho). O pai não falou nada. Ela se foi. Mas quando voltou viu suas coisas todas remexidas e perguntou ao pai porque ele fez aquilo, se ele estava procurando as pílulas contraceptivas dela. E com um toque feminista no ar (eu juro que quase gritei nessa hora), ela disse: “Eu transo com Pedro, já transei antes, e vou transar quantas vezes eu sentir necessidade”. O pai, ouvindo isso, deu um tapa no rosto dela, e eles não se falaram depois desse episódio durante 20 anos.

Na verdade, eu não consegui transcrever a peça como ela foi aqui, nem também pretendo fazer isso porque não tem graça. Destaquei apenas alguns pontos, para que você se tiver a oportunidade de assistir a essa peça, que não perca, pois é muito encantadora. O fio condutor de toda a narrativa é o Chico Buarque, desde a televisão quando ela o conhece, até o as brigas com o pai, motivadas também por causa do Chico, afinal, ele era um militante contra a ditadura e o pai da personagem era ditador caseiro.
Vale a pena conferir.