No final da semana passada li num blog de extrema direita um puxão de orelha a um programa eleitoral do PSDB, que ousava responder às “acusações” (alguma mentira?) sobre as privatizações do governo FHC. O blog bradava que a campanha devia ter uma só pauta, “aborto, feto, embrião, religião, assassinato em massa de criancinhas”. O reaça-mor (ou eu erro em chamar um cara assim de reaça, e oh, estou ferindo sua sensibilidade?) pregava votar em Serra como uma missão, nesse nível: “cada voto vale uma vida”.
Agora, sério, se você tiver um só osso progressista, humanista, sensato no seu corpo, você fica com vergonha de votar num candidato que esse pessoal fascista apoia. Você fica com nojo dessa campanha. Você quer defender o seu país das garras desses obscurantistas. E pro pessoal que diz, puxa, mas Serra não é de direita, aliás, ele é de centro esquerda, eu só posso dizer: você está desatualizad@. Se algum dia tanto Serra quanto o PSDB já foi de centro-esquerda, esse dia já acabou faz muito tempo. FHC nunca fez um governo de centro-esquerda. Pelo contrário. Ele tentou seguir o mesmo roteiro neoliberal imposto pelo FMI a todos os países da América Latina. Um roteiro que afundou a Argentina, como se pode ver no documentário Memórias do Saque. Lá diz assim: “Não existe um só país que entregou seu gás e seu petróleo sem ter perdido uma guerra”. A Argentina fez isso. Vendeu tudo e capotou. FHC tentou fazer o mesmo com o Brasil. Alguma dúvida que, se o PSDB tivesse seguido no poder, hoje estaríamos na mesma situação do México? (México está quebrado, pra quem não sabe). Outra perguntinha: se Serra não é de direita, se o PT não é de esquerda, se é tudo a mesma droga e eles são iguais e político nenhum presta e tanto faz, por que todas as pessoas mais conservadoras, mais retrógradas, mais de direita, apoiam o Serra? Não é uma mórbida coincidência? Por que essas pessoas sempre odiaram o PT, se o PT, afinal, dizem, não é de esquerda? Eles não gostam da barba do Lula, é isso? Deve ter alguma explicação. Ah, sei! É que o PT é corruPTo (assim que eles escrevem essa palavra, como se ela tivesse sido criada em 2003). Porque o PSDB/DEM em quem eles sempre votaram é um modelo de honestidade e transparência, certo? Essa bandeira da moralidade não cola. É só uma bandeira pro reaça cobrir o rosto e dar a discussão como encerrada. Porque eles não têm argumentos. Não têm. Todos os indicadores mostram um salto enorme do país, uma melhora gigantesca. Os índices recorde da aprovação ao Lula provam que quase todo mundo tem essa visão. E tudo que eles continuam dizendo é que o Brasil é o esgoto do mundo, que Lula é analfabeto e picareta. No primeiro turno, tentaram botar o rótulo de terrorista e mentirosa em Dilma. Não colou. Agora, colocaram abortista. Esse colou.
E por que colou? Por apenas um motivo: por ela ser mulher. Até sábado, simplesmente não falavam de aborto com Serra. Não perguntavam nada sobre o tema pra ele, porque ele é homem, e aborto é problema de mulher. E mulher, eu aprendi com meus alunos (mesmo alguns mais progressistas), é um bicho perigoso, que engravida (sozinha!) com apenas dois objetivos: 1) fazer um aborto, que, como sabemos, é o desejo máximo de toda mulher; 2) se continuar com a gravidez, será unicamente para exigir um teste de paternidade e descolar uma pensão do pobre mané que, putz, foi transar com aquela maria-chuteira. Quer dizer, eu pensava que essa argumentação só era usada contra mulher que transa com cara rico e famoso, mas não, descobri que é usada pra toda mulher que faz sexo com um cara. Porque mulher não gosta de sexo, lógico. Logo, pra se sujeitar a fazer sexo, eeeca, só pode ter essas intenções malignas por trás. Também aprendi que mulher só engravida se quiser. É, foi uma semana proveitosa. Um aluno chegou a dizer que mulher só engravida sem querer se for estuprada. E nesses casos ela pode fazer aborto. E acabou. Esse é o pensamento que os machos jovens de hoje dedicam à questão do aborto.
Sei lá, eu devo andar com as companhias erradas, porque, em toda minha vida, nunca conheci uma mulher hétero que não se perguntou algum dia, no desespero: “Será que estou grávida?! Pô, e essa menstruação que não vem?”. Por incrível que pareça, a maior parte das mulheres que conheço é responsável (coisa que seus parceiros não são), e usam métodos anticoncepcionais. Preocupar-se com a menstruação atrasada faz parte da vida de toda mulher em idade reprodutiva. Homem não consegue entender isso. Eles acham que, engravidou, tudo bem, a responsabilidade é da mulher, ela que deve arcar com as consequências, e qual é o lance, anyway? Tenha o filho e pronto. Ou aguente nove meses e entregue o rebento pra adoção. Claro, pra eles é fácil falar. Eles não vão nem pagar pensão. Mas eu fico pasma que homens com uma incapacidade tão grande de empatizar com mulheres, de entender mulheres, se dêem o direito de ditar o que cada mulher deve fazer com seu corpo.
Então, não venham me dizer que nããããão, o fato (porque é um fato, não?) do aborto dominar o segundo turno (e tirar votos! Eu morro de rir quando vejo editorial dizendo que não, imagina, o que impediu a vitória de Dilma no primeiro turno não foi a questão religiosa – foi a corrupção na Casa Civil. Puxa, é mesmo, deve ser por isso que a gente não para de falar na Erenice!) não é por Dilma ser mulher. Marina deu uma entrevista dizendo que, pra ela, só faziam perguntas sobre aborto.Como Serra tem um pênis, esse não é assunto pra ele, a menos que seja pra se apresentar como salvador das criancinhas indefesas que as mulheres, essas facínoras, querem exterminar.
Esta eleição é a mais suja desde a de 1989 (e eu escrevi este post na sexta, antes do tio Rei dizer o mesmo, no sábado, por motivos que já já explicarei). Em 89, pra quem é muito jovem pra lembrar, Collor pagou uma ex-namorada de Lula, Miriam Cordeiro, para aparecer no seu programa eleitoral dizendo que o sapo barbudo (apelido não muito carinhoso dado pelo Brizola) pediu para que ela fizesse um aborto (veja o vídeo velhinho aqui). Deve ter sido uma beleza pra filha dos dois, Luriam (que, by the way, Lula assumiu sem precisar fazer teste de paternidade, sempre pagou pensão e, inclusive, tem um bom relacionamento com ela), então adolescente, ouvir tal revelação de sua mãe, em horário nobre. Essa baixaria (que foi amplamente divulgada pela mídia, que apoiava Collor, aparecendo primeiro no Jornal do Brasil, depois no Jornal Nacional) tirou muitos votos de Lula, mas, ainda assim, ele não foi tachado de abortista nem teve de negar que, no seu governo, legalizaria o aborto. Não virou tema de campanha, entende? Até porque Miriam deu outras declarações incômodas contra Lula, como inventar que ele era racista. Eu fiz campanha direto nas ruas de SP em 89 (sem receber um centavo; aliás, pagando pela estrelinha), e pude constatar que a acusação de racismo pesou ainda mais contra Lula que a do aborto. Mas não foi só isso que roubou de Lula a vitória, por uma margem minúscula de votos. Houve outros dois episódios: sequestradores capturados vestidos com camiseta do PT, e a edição do último debate que a Globo realizou entre Lula e Collor. Quem sabe, sem um desses três fatores, Collor não teria vencido (e sabe-se lá como seria o governo Lula, numa época em que o PT era muuuuito mais radical. Ninguém vai me convencer que teria sido pior que o governo Collor). Ah, duas palavrinhas sobre Collor. Eu ouço gente falando das alianças terríveis do governo Lula, como se gente que se alia com o DEM tivesse moral pra criticar qualquer aliança. Olha, ninguém no mundo é mais purista que militante petista. A gente não gosta de aliança. A gente odeia o Collor. Odeia, de paixão, até porque a gente não esquece do estelionato eleitoral que fizeram em 89. Até porque a gente nunca votou nem votaria no Collor. Mas sabe, alguém votou, e desconfio que sejam essas mesmas pessoas que sempre odiaram o PT e hoje criticam a aliança entre Lula e Collor. Assuma a responsabilidade, pessoal. Foram vocês que elegeram Collor em 89, não nós. A gente era o adversário dele, lembram? E vocês votaram no caçador de maracujás porque tudo menos PT. Mas a aliança de hoje entre PT e Collor, tão criticada, não existe. Collor concorreu ao governo de Alagoas e perdeu (deus é pai!). Apoiou Dilma, mas e daí? Isso não quer dizer que o PT tenha qualquer compromisso com ele (o PT tinha seu candidato, Ronaldo Lessa, que foi pro segundo turno). Inclusive, Collor hoje é filiado ao PTB, e quem vocês acham que o PTB apoia, Serra ou Dilma? (dica: começa com S). Vocês acham mesmo que Collor faria parte de algum governo petista? Mas pode apostar que Tasso Jereissati, Arthur Virgílio, Roberto Jefferson, fariam parte do governo tucano. Não é só apoio. Apoio é fácil, qualquer um dá. É aliança. É estar na mesma chapa. O PSDB não disputa eleição sem o DEM junto. E, bom, se você acredita na lisura do DEM, partido de coronéis, de ACM (que nunca fez aliança com o PT), do panettone Arruda, de Bornhausen, você tem muito o que aprender sobre política.
Naquela época, 89, havia uma penca de boatos não tão infundados sobre o Collor. Boatos feios sobre envolvimento com cocaína, com estupro e morte de uma menina de 7 anos em Brasília, de destempero mesmo, do pai que havia matado um senador em plena sessão de Congresso... Qualquer jornalista brasileiro sabia disso. O PT certamente sabia disso. Saiu tudo publicadinho numa reportagem da revista americana Vanity Fair (que a mídia, que apoiava o Collor, conseguiu esconder). Quanto desse material o PT usou contra o Collor em sua campanha? Nada. Zero. Não existia internet na época, mas havia santinhos apócrifos. Todos, incrivelmente, contra o Lula. O PT nunca divulgou nenhuma dessas informações contra seu inimigo número um. Aí vieram as disputas contra FHC. FHC tinha um filho bastardo com uma jornalista da Globo, e, again, toda redação de todo jornal sabia disso. Foi tema de campanha do PT? Não, porque a coordenação achou que não deveria falar da vida pessoal de um candidato. Nem em 94, nem em 98 (o filho é de 91).
Agora, vamos comparar essa postura ética do PT com a campanha do Serra, que não conhece limites. Os emails mandados são inacreditáveis no preconceito, na baixeza, nas mentiras. Pensar que esses emails são obra apenas de gente que gosta do PSDB (ou melhor, que odeia o PT) é ser muito, muito ingênuo. Há toda uma mobilização profissional na divulgação dessas mensagens. No sábado descobriu-se que gráfica ligada ao PSDB imprimia 18 milhões de santinhos contra Dilma, para serem distribuídos em missas. Antes, que telemarketing tucano ligava pras residências pra incitar eleitores contra a Dilma abortista. Não é uma tarefa fácil porque, ao mesmo tempo em que se espalha a baixaria, não se pode mostrar quem está por trás, já que isso poderia tirar voto (putz, meu candidato manda email dizendo que Dilma foi prostituta de terrorista?! E esse aqui, dizendo que ela teve um caso de vários anos com uma empregada doméstica, não é meio baixo não? Triple win do preconceito: Dilma não só seria lésbica como ainda gosta de negro e pobre, argh!).
Aí a gente fica sabendo de algo que parece não ser boato: que Monica Serra fez um aborto. Como se sabe? Porque ela falou isso pras suas alunas numa aula na Unicamp. E como sabemos que ela falou? Porque uma das alunas decidiu postar o relato no seu facebook. Outras colegas confirmaram. E nenhuma condena Monica por ter feito o aborto. Pelo contrário, entendem que essa é uma decisão de cada mulher, e são a favor da legalização do aborto. A ex-aluna só estranha que Monica tenha dito pra um eleitor evangélico da Dilma, no final do primeiro turno, “Mas ela é a favor de matar criancinhas!”. E o PT vai explorar o aborto do casal Serra? Não, não vai. Porque simplesmente nunca adotou os métodos de seus adversários de falar sobre a vida pessoal. E também porque não acha que uma mulher abortar seja algo condenável. Mas vamos imaginar que fosse a Dilma que tivesse dito pra colegas que fez um aborto, e uma dessas colegas escrevesse a respeito no facebook. Quanto tempo vocês acham que levaria pra isso parar em todos os emails, santinhos apócrifos, missas e tal? Vamos imaginar também que uma das principais coordenadoras da campanha de Dilma tivesse declarado pra maior revista do país ter feito um aborto, como Soninha fez pra Veja. Porque sabe, esse é o tema da campanha. É o tema que está beneficiando unicamente um candidato. Um candidato que está distribuindo milhões de santinhos com as palavras “Jesus é a verdade e a justiça” acima da sua foto e do número 45, pedindo aos eleitores, inclusive, levarem esse papelzinho pra urna.
Eu não sei. Às vezes penso se compensa pro PT ser tão limpinho, tão bonzinho, tão acima das práticas ilícitas de outros partidos — partidos esses que têm a cara de pau de nos chamar de corruptos e imorais. Enquanto a gente tá aqui, cheio de ética, sabendo que joga o jogo limpo e sentindo-se bem por isso, o outro lado nem pisca. Claro, se Dilma ganhar, vai ter valido a pena. Mas e se perder? Fica a minha pergunta, pra qual não tenho opinião formada ainda: devemos baixar o nível pra ganhar eleição? Nossos colegas à direita não precisam reponder. Deles já sabemos a resposta.
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Escrevi isso tudo que você leu acima na noite de sexta. No sábado, a Folha publicou a história do aborto dos Serra, que os tucanos só foram desmentir à noite. Eu acredito na Sheila Ribeiro, bailarina que contou a história. E, se eu fosse ela, teria feito o mesmo. Por que ela mentiria? Ela deixa claro que só contou o que Monica disse à sala porque aborto virou a pauta deste segundo turno. Prova disso é que Serra já foi candidato a presidente (e a prefeito, e a governador, e a tantos outros cargos que ele sempre largou no meio) em 2002, e ninguém falou nada sobre o aborto da Monica. Por que não? Porque não era relevante, aborto não era tema. E por que não? Porque eram dois machos disputando.
Mas agora fica a palavra de Monica contra a de suas ex-alunas. Ninguém mais vai falar no caso. A velha mídia não dará destaque. Pelo menos aborto sairá da pauta. Também, o estrago (contra Dilma) já foi feito. Insistir nisso seria arriscado pros reaças, porque chegou num ponto de saturação, em que o assunto podia começar a tirar votos do eleitor menos obscurantista (deve existir esse tipo de eleitor entre os reaças). Bom, é certo que o tema seguirá, mas desta vez só nos emails e nos blogs sujos deles. Já alcançou quem tinha que alcançar, que eram os religiosos. Minha dúvida é: será que o PT não consegue alcançar esses mesmos eleitores, também por emails apócrifos, e passar o link pro artigo da Folha sobre o aborto dos Serra? Só isso: mandar pro pessoal uma mensagem, olha só como o seu candidato é hipócrita, condena a adversária de fazer algo que ele já fez, vai aí o link pra reportagem. Isso seria jogar sujo? Mesmo se eles já fizeram, e continuarão fazendo, coisa muito pior?