São Paulo destruída por Deus.
Foi essa frase que me conquistou, no livro de estreia de André Cardinali. Um pergaminho antigo encontrado no Afeganistão revela três profecias, cumpridas rigorosamente: uma crise, uma doença e uma nova Sodoma e Gomorra. A maior cidade brasileira sofre com um grande terremoto e é dizimada, matando seus habitantes. Entre eles, a mãe de Alice, a personagem principal.
Com o suicídio de seu pai, Alice torna-se reclusa e pensa ela mesma em se matar. Incapaz de fazê-lo, no entanto, ela decide ir atrás de pistas pelas quais o pai acabou por se matar, levando-se em conta o clima amistoso e pacífico criado com a destruição da cidade de São Paulo e a prova definitiva da existência divina que isso significaria. Isso acaba a levando para dentro da cidade destruída, um local proibido, e ao descobrimento de coisas que sequer poderia imaginar.
Para começar, queria dizer que achei o prólogo do livro totalmente desnecessário. A cena dos meninos afegãos encontrando os pergaminhos das profecias ficou um pouco deslocada, e não adiciona nada, em essência, à história. Eu simplesmente cortaria essa parte sem pensar duas vezes.
Apesar disso, a história tem um ritmo invejável para qualquer texto que tenha mais de sua metade preenchido com procura por pistas e movimentação exacerbada do personagem. Alice passa a primeira metade da história investigando, andando para lá e para cá, entrando em casas, abrindo gavetas, pesquisando, procurando símbolos e referências. Poderia ser uma parte entediante ou chata da história, mas, pelo contrário, foi extremamente bem construída. A escrita é ótima e rápida. Os enigmas que a personagem desvenda são ótimos. Não são fáceis e ela realmente batalha para conseguir entendê-los. Tudo faz absoluto sentido.
Não gostei muito de quando aparece a mensagem cifrada "Libertadores de Almas" com as letras disfarçadas de números. Para mim, pelo menos, ficou na cara desde o começo o que estava escrito, então, apesar de não saber como poderia modificar isso, acho que poderia ficar melhor se fosse diferente.
A história realmente nos leva a uma grande reflexão. Imagino que essa seja a intenção dela, de qualquer maneira. O livro foi escrito com o propósito de nos fazer pensar, e ele realmente me fez pensar. Passei pelo menos uma noite rolando na cama e pensando em todos os mistérios que se estendem à nossa frente e que somos completamente incapazes de desvendar. O último capítulo, a mim, foi muito bem escrito e contém diversas verdades. Exprime exatamente o que eu penso e já pensava a respeito desse assunto.
A linguagem do livro é boa, mas os diálogos ficaram informais demais. Apesar de ninguém falar palavras como "estar", no lugar de "tá", ou "vamos", no lugar de "vamo", acho que a leitura fica muito mais agradável se as palavras estiverem certas. Dá pra deixar a fala mais informal que a narrativa, mas não em excesso. Acho que daria para dar uma pequena corrigida nesse aspecto. Ainda assim, nada que tenha atrapalhado o andamento da história ou sua compreensão.
Algo que me agradou muito foi o fato de eu até agora não ter a mínima ideia de o que o autor acha. André Cardinali é ateu, católico, espírita? É difícil escrever um livro com um assunto tão polêmico quanto religião e permanecer neutro a respeito. Ele dá uma pincelada em diversos aspectos dela, e, no final, não sei se dá para dizer qualquer coisa a respeito dele, apenas a respeito da história. Eu tenho um livro sobre religião, e simplesmente não consigo deixar minha opinião de fora... André Cardinali está de parabéns pelo livro, como um todo!
Mais do que recomendo!
