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Friday, July 29, 2011

Você ouve vozes? Cuidado são eles, os objetos

Disseram-me que as imagens eram falsas. Tudo alucinação da minha mente. Eu errei, não deveria ter contado a ninguém, mas não podia calar-me diante de tal situação.

Algumas teorias que estudamos no colégio apontam o surgimento da vida através de outra vida, explosão de cosmos e até mesmo idéia de um deus que não tinha nada o que fazer e resolveu planejar a vida humana.

Mas, foi numa tarde de domingo, depois do descanso de almoço que vi algo além da imaginação.

- “Sai de cima de mim, está doendo”, gritou uma voz.

 Olhei para todos os cantos e nenhum ser humano estava no quarto, mas percebi que a cama se mexia, era como se a madeira estivesse viva, como a árvore que um dia existiu.

Não acreditei. A madeira estava falando comigo...estou louco, simplesmente louco.

- “Você é pesado amigo, dá para aliviar um pouco, está doendo”, disse novamente.

Eu resolvi dá uma chance a minha loucura e perguntei quem estava falando comigo, furiosa ela respondeu.

- “Sua queridinha aqui! Embaixo de você”

 Seres humanos são engraçados, acham que só eles tem vida no mundo. Quando vocês me tiraram da floresta eu não virei pó, ou apenas uma cama, eu sou composta de vida, e digo mais, tudo neste mundo está vivo, mas poucos tem o dom de ouvir a nós.


- “Parabéns, garoto, você é um diferencial e vou poder me queixar sempre que quiser”.

Qual foi minha reação? De imediato, pensei em vender a cama, doar a alguém, não podia ser verdade toda aquela história maluca, e quem iria acreditar que pedaços de madeira sabia português e falava tão bem?
Sentei no chão como aquelas imagens de filmes em que a gente escorre pela parede. Novamente ou vi gritos.

- “Aiiii, assim dói rapaz, já basta o peso todo desta casa e você ainda se encosta assim, tá de brincadeira né?”

Agora, era a parede! A parede estava falando! Loucura ou não, resolvi ligar para a Marly, amiga próxima que escuta todas as besteiras que penso diariamente.  Quando falei das vozes, ela enlouqueceu, veio até a minha casa e tentou escutar tudo, mas nada conseguiu.

- “Julinho, você tá doidão hein? Tá fumando aquela erva ainda. Já disse que era para você parar, olha lá hein, não viu o que aconteceu com Amy?”

Tudo culpa da droga.... Tinha que ser, nunca a gente faz nada, ouve nada, pensa em nada. Quando os atos são falhos, insistimos em por a culpa em alguém, e não sobra nada.

Pior de tudo, era ouvir a Marly, a parede, a cama, o sofá, a estante, todo mundo falando ao mesmo tempo.  Pra completar minha mãe chegou reclamando da cesta de lixo, atolada de papel sujo que não tinha tirado para limpar.

-“Shit!!” ... não é assim nos filmes americanos?

A Marly percebeu minhas mãos nos ouvidos, o meu estado de choque e contou tudo para minha mãe, menos a parte das drogas, ainda bem.

A reação da minha mãe? Ela sorriu, deu mil gargalhadas que se tornaram um inferno ao longo dos dias. Ela não só gozou de mim como contou para os vizinhos, amigos, família e tudo que tem ouvido neste mundo.

Eu andava pela casa e até as paredes riam de mim. Não era possível sobreviver num mundo como este. Vida que produz vida, que permanece viva. Que diabos está acontecendo comigo?

Decidi visitar o psicanalista, ele tentou umas hipnoses, não conseguiu e disse que tudo era trauma de infância, que eu tinha passado por alguma fase difícil na vida até os seis anos e que tinha guardado no inconsciente a razão do aparecimento daquelas vozes.

É...acho que ele fumava mais que eu e Freud juntos.

Solução para aquele caso. Acho que não tinha, então passei a conversar com todos que reclamavam de dores, cansaço. Minha mãe achou estranho eu não dormir mais em cama, não encostar em paredes, sentar em cadeiras. Realmente, eu não queria explorar mais ninguém, já bastava o sofrimento daquelas vidas presas ao mesmo lugar.

Mergulhei na história a fundo. Decidi conhecer cada parte da casa, fiz relatórios e a minha amizade com a cama só fazia aumentar.

Não queria mais conversar com pessoas, elas não sabiam o que diziam. A casa sim, sabia conversar, lembrava de todos os momentos da minha vida.

Minha mãe percebeu que a coisa estava séria, me viu isolado conversando com as paredes, e do riso passou ao choro.

- “Meu filho enlouqueceu, o que eu faço?”

Mas aquela era a minha verdade, por que as pessoas tinham que enxergar como loucura? Como alguém pode afirmar que pode ouvir, escutar, sentir e enxergar as mesmas coisas que eu ou você? Ninguém pode afirmar isso, não há como entrar na mente do outro e perceber a vida da mesma forma, e para falar sério, eu estava gostando das minhas novas amizades.

Fiquei triste por mamãe. Ela passou a ter pena de mim, mas não podia imaginar a beleza da vida em outros objetos, no sofá, na cama, na madeira. Eu também achei que tudo isso era loucura, mas desenvolvi esse dom e passei a cuidar de todos com mais afinco, precisão e carinho.

Nos momentos de raiva, eu sempre chutava a mesinha do computador, hoje... tento recuperar sua amizade, ela foi a que mais destruí com minha grosseria. E assim convivemos, mamãe aos prantos e eu e a casa em perfeita harmonia.  
  
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