Era o aniversário da pequena Susi, estava completando sete anos naquele dia e esperava ansiosamente pelo presente dos pais.
Houve festa, bolo, cantoria e parabéns. Os amiguinhos foram até sua casa, mais pelos brinquedos e atrativos da noite do que pela comemoração de existência da garota. Ela sabia disso, tanto que ficara sozinha a maior parte do evento.
Mas isso não incomodava Susi, ela sabia que era diferente e para falar a verdade, estava muito mais preocupada com o presente dos pais que até então não tinha recebido do que com os pensamentos da turma do colégio.
Ganhara dos coleguinhas, roupas e brinquedos, porém nada disso satisfazia a menina. Com apenas sete anos, Susi admirava as histórias relatadas em livros e sua companhia era a biblioteca do colégio.
- Querida, não esquecemos do seu presente. Aqui está, consegue adivinhar o que é?
Susi observou o embrulho e seu semblante logo mudou. Ela estava alegre e ansiosa, mas ao identificar o conteúdo do presente decepcionou-se com a falta de conhecimento dos próprios pais.
- Eles não sabem nem do que gosto, acham que sou como todas, realmente não prestam atenção em mim.
Chorando, a garota saiu desesperada em direção ao quarto e agarrou o ursinho de pelúcia que costumava a dormir abraçada.
- Meus pais, meus próprios pais! Não acredito!
Leandro e Mônica não entenderam a reação da garota. Tinham comprado o último modelo lançando da boneca Barbie, sonho de consumo de “todas” as meninas.
- Filha, você não gostou do presente?
- O que eu vou fazer com uma boneca, mãe?
- Brincar, como todas as garotas, não?
- De comidinha, namoro, faxina? Mãe...onde estavam você e papai que não me conhecem? Eu detesto bonecas e esses brinquedinhos de casa, eu gosto de livros, só isso.
- Filha, eu sei que você gosta da leitura, mas estamos preocupados com a sua relação com as meninas, você ficou a noite toda praticamente só, sentada numa mesa com os adultos, isso não é normal.
- Normal é gostar de bonecas e brincar pateticamente? Não sou tola mãe, já vivi muitas experiências através dos livros, não tenho idade mais para crianças.
- Filha, você tem sete anos!
- Tenho sete anos e você deveria estar alegre por eu preferir livros a bonecas!
Atordoada, Mônica deixou a filha só e foi ao encontro do marido. Relatou a conversa e chorou angustiada com a situação.
- Se com sete anos ela só quer saber de livros, imagine quando crescer? Não vai querer casar, ter uma casa, marido. Vai ser uma solitária no mundo da fantasia.
Esse era o pensamento de Mônica, não importava se a filha pretendia trabalhar e ter uma carreira de sucesso, ou talvez ser uma grande escritora. O importante era casar e ter filhos.
Susi permaneceu no quarto, não queria mais saber de festa. Esperava ganhar “O pequeno príncipe” e acabou ganhando a princesa de plástico. Observou as feições da boneca. Odiou o cabelo loiro e a cintura fina. Pegou uma caneta, escreveu versos sob a pela esbranquiçada da Barbie.
“Viver em sociedade é um desafio porque às vezes ficamos presos a determinadas normas que nos obrigam a seguir regras limitadoras do nosso ser ou do nosso não-ser...
Quero dizer com isso que nós temos, no mínimo, duas personalidades: a objetiva, que todos ao nosso redor conhece; e a subjetiva... Em alguns momentos, esta se mostra tão misteriosa que se perguntarmos - Quem somos? Não saberemos dizer ao certo!!!
Agora de uma coisa eu tenho certeza: sempre devemos ser autênticos, as pessoas precisam nos aceitar pelo que somos e não pelo que parecemos ser... Aqui reside o eterno conflito da aparência x essência. E você... O que pensa disso? Que desafio, hein?”
Quero dizer com isso que nós temos, no mínimo, duas personalidades: a objetiva, que todos ao nosso redor conhece; e a subjetiva... Em alguns momentos, esta se mostra tão misteriosa que se perguntarmos - Quem somos? Não saberemos dizer ao certo!!!
Agora de uma coisa eu tenho certeza: sempre devemos ser autênticos, as pessoas precisam nos aceitar pelo que somos e não pelo que parecemos ser... Aqui reside o eterno conflito da aparência x essência. E você... O que pensa disso? Que desafio, hein?”
Os versos de Clarice Lispector se espalhavam pelo vestido, pele e corpo da boneca, agora sim, Susi ficara feliz. A Barbie transbordava pensamentos, era como a página de livro que não tinha ganhado.