
Faz tempo que não ia ao cinema dia de domingo. E ontem foi dia de prestigiar o trabalho nacional com o filme Besouro.
Manuel Henrique, negro do Recôncavo Baiano, de Santo Amaro, conhecido como Besouro, viveu por volta de 1920 combatendo o preconceito contra os negros e sua cultura.
O filme conta uma pequena trajetória do que realmente foi o capoeirista, apostando no encanto dos efeitos especiais, afinal, diz à lenda que o rapaz era tão bom na capoeira que podia até voar.

Os efeitos são impressionantes, geralmente quando se trata de obra nacional, ficamos sempre com um pé atrás, mas em Besouro não há defeitos, a fotografia é de um gosto impressionante, pois enquadra muito bem as cenas e utiliza de um colorido estonteante.
Essas cores vibrantes provem de cenas que foram gravadas, na maior parte do longa, em conato com a natureza. É o verde das plantas, azul da água e o colorido das flores e entidades religiosas do Candomblé.

E essa parte religiosa marca muito, vem até como soco para muitas das pessoas que acham que o Candomblé é sinônimo de macumba.
No começo do filme Besouro se mostra descrente até ver a figura de Exú.
Exú é o orixá da comunicação, ele é a entidade que desafia, ele é o símbolo das grandes contradições. É o senhor dos caminhos, da virilidade, do sexo, dos sentidos, da força de viver. Tendo em vista essa descrição, prosseguindo a narrativa, Besouro é de certa forma desafiado por Exú. Este diz que o capoeirista tem que reverenciá-lo, mas Besouro não quer estar abaixo de ninguém, e por isso começa uma luta entre os dois, até que enfrentando o impossível de ser derrotado, Besouro é convencido, deixa o orgulho de lado e se ajoelha diante daquele que tem lhe guiado, mesmo sem ele saber.
E aí que entra o misticismo da trama. Depois dessa luta nunca mais Besouro é o mesmo. Ele é tomado por forças especiais que o fazem o grande herói da cena, pois é ele quem vai defender seu povo da escravidão que foi abolida, mas que ainda existe na Bahia.

Outro fato incrível que achei no filme foi a posição da mulher. Dinorá, uma negra capoeirista, está em contato o tempo todo com homens e nas rodas de luta. Em nenhum momento é tratada como inferior, mas na mesma posição que os lutadores. No entanto, não só ela como outras negras, quando estão na casa de seus senhores são serviçais exploradas sexualmente.

Há cenas em que os capangas falam de maneira preconceituosa associando negros a macacos. Infelizmente, um filme que retrata de maneira fiel como muitos brancos tratam os negros, foi motivo de risos pela platéia do cinema. Risos estes que vieram da associação. Provando o quanto ainda se tem uma grande batalha contra o racismo.
Mas Besouro se mostra como um filme que tinha tudo para ganhar um oscar! É um filme educativo, do ponto de vista da cultura negra, além de retratar como eram escravizados os seres humanos na década de 20.
Eu nunca tinha ouvido falar do capoeirista antes. E um amigo meu, capoeirista contou-me que Besouro realmente é um herói entre os capoeiristas de todo o Brasil, um símbolo. Até nas rodas existem músicas que lembram de sua presença de maneira a preservar uma história de vida importante para nossa cultura brasileira.
Vejam o trailer abaixo: