Eram quase nove e meia da noite, quando não encontramos espaço seguro e um menino desses que guardam os carros disse-nos para segui-lo.
- Enfim, uma vaga!
Em cima de um canteiro, carros e carros enfileirados. Cerca? Segurança? Nenhuma. O menino apenas cobrou dez reais e foi em busca de um novo cliente. Tínhamos que pagar, fazer o quê.
Uma multidão se dirigia à portaria principal. E nós já estávamos ouvindo a banda Mato Seco tocar. Era uma das bandas que tínhamos ouvido nos últimos meses com mais freqüência. E nunca presenciamos um show deles. E chegamos tarde demais para pegar todo o repertório.
Os ingressos estavam mais caros. Trinta e dois reais na mão dos cambistas, e para pegar por trinta havia uma fila gigantesca, não podíamos esperar mais tempo ou o show ia acabar.
O público parecia não conhecer a banda de abertura. Algumas pessoas apenas observavam. Outras seguiam o ritmo do som, já “batizadas” com o verde da paz. E outros como meu namorado e eu prestávamos atenção e tentávamos acompanhar as letras de resistência.
Mato Seco, por exemplo, possui músicas belíssimas, com um ritmo arrastado, que te levam a reflexão plena. Ora fala sobre o estudante que protesta, ora fala da mãe que sobrevive sem comida na mesa. É bonito ver pessoas que pensam criticamente e não aceitam as injustiças que estão aí em nossa frente, e por ser um ritmo leve, sem muita distorção na guitarra, fica fácil compreender as letras no show e a mensagem que o artista deixa.
Logo depois de Mato Seco, entrou a banda norte-americana S.O.J.A, essa eu nunca tinha ouvido falar, mas o som parecia ser legal. Não fiquei lá na frente dessa vez, encontramos uns amigos e ficamos batendo papo e bebendo uns líquidos eufóricos. Eu estava mesmo ansiosa para ver a minha banda preferida do estilo, que se chama Ponto de Equilíbrio.
E como valeu a pena ter esperado, porque quando o vocalista Hélio Bentes e sua banda começou a tocar, aquela explosão de energia que só ele consegue transmitir quando canta começou a mexer comigo, e dessa hora em diante eu não consegui mais parar de cantar bem alto até minha voz sumir e a garganta ficar doendo no final.
Ponto de Equilíbrio é uma dessas bandas que da primeira vez que você escuta, você não gosta. O vocalista tem uma voz meio infantil, e você logo deixa passar. Mas depois que presta atenção na letra, não consegue mais parar de ouvir. E o melhor de tudo, o show é muito empolgante. Hélio Bentes parece cantar em transe o tempo inteiro. Ele pula, ele corre, ele se mexe euforicamente. É uma energia sem comparação. E eu adoro vocalistas assim.
E os efeitos que a banda colocou dessa vez, estavam muito legais. A voz tinha momentos em que ficava com um eco constante. Que por momentos, me deixava confusa, atordoada, mas não era um sentimento ruim, pelo contrario, era um sentimento forte, de amor, de paz, de luta. Onde você percebe que milhares de pessoas estão ali em prol de um bem maior, o da resistência. O que me faz admirar ainda mais o reggae como ele é.
Depois veio o tradicional reggae man baiano, Edson Gomes, que deixou a desejar, porque agora ele só faz colocar o filho para cantar, e depois quando ele entra, enrola e só canta cinco músicas. Sem falar que cada música que ele canta, demora uns dez minutos de enrolação, parece que não tem mais prazer em estar no palco. E outra, resmungou o tempo todo no microfone, para todo mundo ouvir, que ele estava insatisfeito com o som. Não é a primeira vez que vejo isso, ele anda tendo essas atitudes com muita freqüência, o que deixa os fãs extremamente chateados. Também, não é para menos.O último a se apresentar foi o cantor jamaicano Gregory Isaacs, às cinco horas da manhã, com o sol raiando e o público fiel estava ali presente. Fique pasma.
Resumindo, o República do Reggae 2009 em Salvador, foi perfeito. O espaço está ficando pequeno, a cada ano que passa percebo novas tribos e um aumento na quantidade de público. Já é um dos maiores festivais do Brasil, representando um só estilo, o que é bonito de se ver. Daqui a alguns anos, vai ter de ser realizado no Parque de Exposições, local bem maior.

