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Tuesday, August 17, 2010

O desejo de colecionar

O perfume é um objeto que trás recordações de vários momentos da vida. Para alguns significa até mesmo parte da identidade pessoal. Quem não recorda do cheirinho de um antigo paquera, da fragrância de um amigo?

É impossível deixar de fazer associações através do olfato, mesmo quando não nos lembramos a quem se refere o cheiro, ficamos angustiados durante horas tentando recordar a quem pertence o determinado perfume.  

Por entender o valor do olfato, é que no início da minha adolescência decidi colecionar frascos de perfume.  Nas comemorações de aniversário não era raro ganhar um “cheirinho novo” de presente.  O período de um ano não era suficiente para utilizar todo o frasco, então se acumulavam perfumes na minha penteadeira a cada comemoração e também por falta de uso freqüente.  

Era prazeroso terminar o banho e ficar parada durante alguns minutos tentando escolher qual deles eu iria usar. O critério de elegibilidade era por valor de momento.  Se fosse sair com a família, o perfume tinha que ser aquele que eu mais gostava. Se o momento não era tão importante, usava um dos quais fui presenteada.

 Eu também não poderia deixar de relatar o casual, aquele para uso diário. Esse “cheirinho” era a minha marca pessoal, a qualquer momento, se alguém fosse me visitar, estaria eu com a mesma fragrância. A diferença desse perfume para o que eu usava com a família, era que esse não enjoava, então, eu poderia usá-lo todos os dias, já o da família não, era só para ocasiões especiais.

Quando o líquido terminava e o frasco ficava vazio, guardava tudo numa caixinha antiga de sapato e escondia no local menos visível do meu guarda-roupa. Eu tentava ocultá-la porque minha mãe não gostava de acumular objetos sem utilidade em casa, se ela percebesse algo inútil ali, jogava tudo fora, sem a minha permissão.
Depois de alguns anos, acostumada a vida de colecionadora de perfumes, a quantidade de caixinhas de sapato quadruplicou. Ficou impossível esconder tanto frasco vazio da minha mãe. Quando ela percebeu minha coleção ficou assustada, não compreendia o valor de tantos momentos cuidadosamente conservados no meu esconderijo.

Havia também um motivo especial para colecionar os frasquinhos de perfume. A fragrância parecia não ter fim, ela ficava registrada no frasco durante anos, então quando sentia saudade de alguma ocasião, bastava pegar um perfume e aproveitar as lembranças.
Num determinado dia, olhei todos aqueles frascos e não senti saudade. Eles já não tinham o mesmo valor de outrora. Recolhi todas as caixas e transformei várias recordações em lixo.

Se me arrependo?

- Talvez.

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