É impossível deixar de fazer associações através do olfato, mesmo quando não nos lembramos a quem se refere o cheiro, ficamos angustiados durante horas tentando recordar a quem pertence o determinado perfume.
Por entender o valor do olfato, é que no início da minha adolescência decidi colecionar frascos de perfume. Nas comemorações de aniversário não era raro ganhar um “cheirinho novo” de presente. O período de um ano não era suficiente para utilizar todo o frasco, então se acumulavam perfumes na minha penteadeira a cada comemoração e também por falta de uso freqüente.
Eu também não poderia deixar de relatar o casual, aquele para uso diário. Esse “cheirinho” era a minha marca pessoal, a qualquer momento, se alguém fosse me visitar, estaria eu com a mesma fragrância. A diferença desse perfume para o que eu usava com a família, era que esse não enjoava, então, eu poderia usá-lo todos os dias, já o da família não, era só para ocasiões especiais.
Quando o líquido terminava e o frasco ficava vazio, guardava tudo numa caixinha antiga de sapato e escondia no local menos visível do meu guarda-roupa. Eu tentava ocultá-la porque minha mãe não gostava de acumular objetos sem utilidade em casa, se ela percebesse algo inútil ali, jogava tudo fora, sem a minha permissão.
Depois de alguns anos, acostumada a vida de colecionadora de perfumes, a quantidade de caixinhas de sapato quadruplicou. Ficou impossível esconder tanto frasco vazio da minha mãe. Quando ela percebeu minha coleção ficou assustada, não compreendia o valor de tantos momentos cuidadosamente conservados no meu esconderijo.
Havia também um motivo especial para colecionar os frasquinhos de perfume. A fragrância parecia não ter fim, ela ficava registrada no frasco durante anos, então quando sentia saudade de alguma ocasião, bastava pegar um perfume e aproveitar as lembranças.
Num determinado dia, olhei todos aqueles frascos e não senti saudade. Eles já não tinham o mesmo valor de outrora. Recolhi todas as caixas e transformei várias recordações em lixo.
Se me arrependo?
- Talvez.