English French German Spain Italian Dutch

Russian Brazil Japanese Korean Arabic Chinese Simplified
Translate Widget by Google
Showing posts with label questionamento. Show all posts
Showing posts with label questionamento. Show all posts

Thursday, August 18, 2011

Não vejo sombras e você?






A mulher que descrevo hoje era novíssima em folha, pele rosada e esticadinha da juventude. Seu corpo era de estatura mediana, não magro totalmente, em algumas partes poder-se-ia ver volumosos grupos de tecido adiposo. Mais isto, deixemos de lado.  O fato era que Virginia sempre se comparava a sombra. Queria identificar as partes, tinha mania de parar em qualquer lugar e ficar observando o contorno que a luz projetava do seu corpo. Se estava um pouco inclinada, fazia o máximo para consertar. Uma mania boba, que ninguém lhe ousava reclamar, afinal era brava como a mãe, que morreu em briga por um copo de cachaça.


Toda noite era o mesmo ritual, deixar o abajur aceso e ficar defronte o objeto analisando a sombra, até sentir-se exausta e dormir. Numa segunda-feira de agosto aconteceu diferente. Virginia tinha acabado de sair do banho quando tentou acender o abajur e este não deu sinal. Falta de energia não era, pois a luminária do som estava ligada. Abaixou-se para verificar a tomada, e nada, estava tudo corretamente conectado. O que havia acontecido?

O frescor do banho já havia evaporado e gotas de suor escorriam sobre seu rosto. Era raiva. Tinha que alimentar a rotina, não poderia deixar de lado o que fazia todas as noites assim, como quem abandona tudo e não liga para o que vai acontecer.

Deu duas pancadas de leve no objeto, mas nenhum feixe de luz surgiu Já eram 23h, não podia ligar para o eletricista, era tarde demais. Então, decidiu riscar um fósforo, acender uma vela, qualquer coisa que projetasse a sombra da forma que queria. Conseguiu. Sentiu-se aliviada, ficou defronte a vela e nada. Cadê a sombra?

Procurou em todos os cantos, até debaixo da cama e nada. Esta noite não tinha sombra. Chegou a pensar que talvez o abajur não tivesse ligado para lhe esconder a verdade, e a vela, persona non grata como era decidiu mostrar-lhe o que realmente tinha acontecido. Besteira. Já estava começando a delirar.

Procurou um espelho, viu que estava tudo no mesmo lugar, morte não era. Beliscou-se intensamente, sentiu dor, morte não era. A voz estava como sempre aguda de irritar. Pensou em chamar o vizinho, relatar o caso, mas não... poderia interná-la por loucura. Ninguém ligava mesmo para sombra, só ela, quem ia reparar nisso.  Tomou dois remédios “tarja preta” e enfim conseguiu dormir.

No dia seguinte, ainda assustada pensou se a história não seria um sonho, abriu a janela para que os raios de sol entrassem e constatou ausência de sombra. Perplexa, vestiu-se rápido, tomou dois goles de café e saiu.

No centro da cidade, as pessoas caminhavam com pressa e só Virgínia tinha reparado na ausência das sombras. Ficou feliz por não ser a única, mas triste porque perdeu a mania predileta de procurar a projeção, achar e analisar.

Apavorada, com sintomas de abstinência, agarrava qualquer um que passasse em sua frente para comunicar o caso.

- Cadê a sua sombra? Sumiu!! Você não percebe?

E as pessoas começaram a ter medo, não do caso, mas de Virgínia. Um policial observou a jovem e logo veio questionar o que estava acontecendo. Ela, sem medo, apontou para o chão e apenas disse: Cadê a sombra?

O policial sorriu. Deveria ser louca, pensou. Mas reparar mesmo se tinha sombra ou não, isto ele não fez. Apenas autuou a mulher e levou-a ao centro médico mais próximo.

Virginia não estava louca, realmente as sombras sumiram, mas ninguém prestava atenção a sua fala. O dia corriqueiro, a pressa, o trabalho e o olhar sobre o estranho espantavam qualquer ato de comunhão.

Foi avaliada. O médico nem olhou para o seu rosto, com o lápis na mão , prestando atenção no papel apenas questionou seus hábitos e o que sentia, anotou qualquer coisa, e recomendou apenas repouso.

Sabendo que aquilo tudo era desnecessário,  retornou para casa e tentou ligar o abajur. Nada. Ele ainda não acendia. Talvez tivesse queimado a lâmpada, pensou.

Foi até a casa do vizinho e calma falou:

- Bom dia, Senhor Eduardo, como vai? Estou com um pequeno problema no meu abajur, poderia me ajudar?

- Virginia, estou bem, desculpe mas a comida está no fogo, e não posso ajudá-la agora. Talvez, mais tarde, ok?

Nem respondeu, saiu agoniada e reparou que o velho também não tinha sombra.

Questionou a si mesma sobre o caso e por que as pessoas não entendiam o que falava. Louca não era, mas ficar sem sombra, isto sim era um problema.

Tentou, tentou de tudo para fazer as pessoas analisarem o caso, mas ninguém a ouvia. Então, escreveu uma carta e correu em direção ao prédio mais alto.  Atirou-se lá de cima.

Corpo estendido no chão e papel grudado no peito, o conteúdo apenas dizia: “a sombra sumiu, estamos sem sombra”!

Tuesday, July 12, 2011

Reflexões sobre atividade em sala de aula e livro "O Estrangeiro"



Recentemente, freqüentei uma aula de psicologia e para que a turma se conhecesse a professora pediu que nos descrevêssemos com uma qualidade numa folha de papel.

A atividade parecia simples, mas o questionamento do eu sempre gera boas reflexões como aconteceu com o autor Albert Camus quando escreveu a obra “O estrangeiro”.

O livro trata de um homem indiferente ao mundo, desprovido de emoções que ao perder a mãe não chora nem se comove com o fato. Para nossa sociedade a atitude de Mersault, como assim é chamado, é um absurdo. Como não chorar por aquela que lhe deu a vida?

Mas o personagem é sincero, não sente vontade de chorar, não sofre por isso e não quer fingir um sentimento.  Assim como, quando a companheira lhe pergunta se a ama, ele responde que não, mas que isto não faz diferença.

No entanto, o valor moral da sociedade pesa sobre grandes decisões. Em um momento do livro, Mersault mata um árabe simplesmente pelo forte sol que se faz presente na praia. O instinto de agressão e ódio lhe faz, por um momento, agir e ter reação em relação ao mundo, mas parece que este não foi o momento certo para o rapaz expressar-se.

O personagem é preso, mas o julgamento do caso acaba direcionando-se mais para a frieza de Mersault em relação à morte da mãe, do que com o assassinato do próprio árabe.

O estrangeiro, o título do livro se refere ao próprio rapaz que se configura como um homem estranho a espécie humana, ou seja estrangeiro. Somente no julgamento, é que ele pode refletir quem ele é, com a opinião dos outros a seu respeito, mesmo que isto seja sua condenação á morte.

Ao ler esta obra fantástica, o leitor se depara com o absurdo das situações e o sentimento de revolta pelo que se espera do outro, culturalmente e socialmente falando.

Mas, voltando ao assunto da aula, quando paramos para analisar sobre nós mesmos, forçadamente pela professora,observo o quão complicado isto pode ser, não acha?

Eu me descrevo da forma que acho melhor, mas quase sempre faço de modo que seja complacente com que as pessoas esperam de mim.  Digo isso, porque se me qualificasse como, indiferente ou outro adjetivo qualquer e incomum, o que a professora e os alunos diriam?

A gente sempre está pensando no que as pessoas vão falar de nós e por isso temos que agir como esperam que um ser humano “normal” aja perante a sociedade, mesmo que para isso fingir seja a arma principal.

O estrangeiro me comoveu porque a linguagem seca do autor faz com que nós analisemos a vida do personagem de forma complexa. Nós percebemos a indiferença do rapaz com o mundo, mas a verdade no ser daquele jeito. Mersault não é uma pessoa ruim por não chorar ou por matar alguém sem motivo, ele apenas é assim e não finge ser “melhor” para os outros.

Durante a aula, uma garota disse que nunca pensou em quem ela era. Percebia-se visivelmente a dificuldade que tinha em se descrever.

Eu busquei o adjetivo mais simples para responder logo a questão, mas considero a atividade complexo e impossível de se resolver em simples minutos. No entanto, para uma breve apresentação, dizer que sou isto, ou aquilo e ponto final, basta.

No final do semestre, todos vão avaliar se aquilo que disseram é realmente verdade, e aí será avaliada a verdade dos fatos, se cada um descreveu a si mesmo como uma farsa que pode ser analisada como absurdo e gerar revolta, ou como simples sujeito da verdade.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...