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Friday, September 16, 2011

Autora desfigurada



Ela queria ter uma visão ampliada do mundo, enxergar além, analisar as entrelinhas, no entanto sentia-se incapacitada pelo árduo gosto da inferioridade. Era pequena em meio a multidão, ninguém acreditava em seu potencial, passava muitas vezes despercebida, de vez em quando ficava chateada, mas logo comprava uma barra de chocolate e pronto, sentia-se feliz novamente.


Era esforçada, pesquisava métodos de crescimento, conseguia desenvolver potencialidades, mas o medo rondava-lhe a mente como fumaça em beira de estrada. Sem querer, acabou existindo apenas no mundo virtual. Adquiriu nome novo, fez fama, escrevia como ninguém. Mas nunca revelou a face, principal organismo de identidade. Reconheciam-lhe pela imagem cortada, rasgada ao meio, algo semelhante a sua alma.

Se comentassem sobre os assuntos que descrevia nos sites, não saberia falar. Ficava muda. Parecia que nada daquilo era produção própria, autoral. Que raios de mulher é essa? Ninguém saberia dizer. Houve inúmeras buscas, contrataram hackers para descobrir, afinal o paradeiro daqueles pensamentos.

Sabiam que não era roubo, tudo original e por isso mesmo aumentava o gosto pela procura. E a pobre mocinha, em casa, com medo e feliz por prestarem atenção nela. Era a estrela da vez, mas não tinha rosto, os jornalistas precisavam de fotos, estampar imagens nos jornais, não queriam texto, “letra por letra já temos demais”, alguns diziam.

Uma manchete chegou a anunciá-la como a autora desfigurada. Veja que horror, a que ponto chegaram?!

A mocinha não desistiu, continuou a escrever e os textos ficavam cada vez melhores, o problema era o rosto. O que será que não poderia mostrar? Cicatriz, tatuagem, verruga? As possibilidades não cessavam, fotos falsificadas apareciam aos montes na internet, revelando a “verdadeira” identidade da estrela. Mas a estrela não queria brilhar e as pessoas não entendiam esse direito.

Por isso, o fim da história termina assim, sem explicação porque as decisões que tomamos muitas vezes não precisam de respostas, cada um cria o que bem entende e define como quiser. Com certeza a sua mocinha é diferente da minha, mas ambas continuam mocinhas.

Thursday, August 25, 2011

Parindo um texto



Tem explicação sentar em frente ao computador e digitar palavras sem sentido e letras deformes? Penso no respeito para com o leitor que gasta preciosos minutos ao ler esse texto publicado. Chato? Talvez. Hoje acordei assim, sem inspiração, cansada dos relatos superficiais do passado, afinal tudo isso já passou, é como uma roupa gasta que no fundo já não se quer mais e tem que se conviver até a chegada de uma nova para enfim, contar história.

Tentei registrar o hoje com rimas esparsas, velhos ditados e uma dose de clichê, porém nada fluiu. A mente parece um copo em que a gente mistura bebidas alcoólicas, toma até o último gole e no fim só resta vergonha. O leitor deve estar confuso, que tipo de loucura é esta? Não, não estou com medo do presente, caro amigo, mas tenho vivido mais o futuro do que o que hoje relato aqui. Será errado agir assim? Lembrar do amanhã e esquecer o que fiz hoje?

Se perguntar-me agora o que desejo fazer nesta quinta-feira, não saberei dizer, pois as palavras saem como chuvas que não param, formam enchentes, acho que até já me perdi. Engraçado como a inspiração surge do nada e vai comandando o cérebro, que incita os dedos a apertarem cada tecla deste computador formando um texto, na verdade horroroso.

Desculpe leitor, não estou a te fazer de bobo ou algo parecido, mas é incontrolável o vai e vem destas palavras, talvez possa chegar a conclusão de um sentindo, se é que na vida existe mesmo algo parecido com isso.

Tuesday, August 23, 2011

A contadora de histórias que não sabia ler


Toda vez que caminhava pela rua, observava os cartazes colados nas estruturas de prédios e paredes de casas. Alguns anunciavam promoções e cursos, outros divulgavam ofertas de emprego. Por mais que tivessem imagens e desenhos, nada podia informar Juliane do que se tratava.

Não era má vontade, a garota só não sabia ler. Escrevia o próprio nome porque fora obrigada a aprender, afinal tinha que fazer a identidade e assinar os comprovantes de salários recebidos no final do mês.

Trabalhava numa casa de família, grande, bem estruturada. Sozinha dava conta da limpeza de quatro quartos, cozinha, sala de jantar, quatro banheiros e mais um amplo jardim decorado com girassóis, margaridas e orquídeas.

Começou o trabalho aos 13 anos. Precisava ajudar nas despesas da família e não podia ficar parada. Abandonou os estudos, não chegou à alfabetização. Reconhecia um “a”, de vez em quando um “b”, mas nada que formasse frases.  Sabia escrever o próprio nome porque tinha decorado. Pergunte a ela quais letras compõem a palavra Juliane e ela jamais responderia.

A vida não era fácil. Todos sabiam de tudo, menos ela. Olhava as crianças com livros nas mãos encantadas com o mundo, outro universo que certamente não fazia parte do seu. Ás vezes até perdia o horário da faxina imaginando o que estava escrito ali.  Era curiosa, boa menina, mas não entendia o enigma das letras.

Os patrões sabiam da ignorância da moça. Incentivaram-na a retomar os estudos, mas Juliane se achava velha demais para freqüentar sala de aula.

A filha mais velha do casal chamada Rosa, preocupada com a situação decidiu chamar a jovem de 28 anos para conversar. As duas eram muito amigas apesar da mãe não gostar muito da aproximação. Tentou convencer-lhe a parar duas horas por dias para estudar. Ela mesma lhe ensinaria o alfabeto.

 Juliane ficou acanhada, sabia do arquétipo da patroa e não quis aceitar. Já fazia tanto tempo que não decifrava a escrita, não faria mal morrer daquele jeito, afinal já se acostumara.

Enquanto limpava a biblioteca, abriu um dos livros e tentou reconhecer algo. Eram apenas letras que não lhe significavam nada. Folheou algumas páginas e só conseguiu reconhecer o “a”, mas eram tantos que pensou que fosse uma manifestação de “as” sobre alguma coisa.

Rosa se aproximou do local e percebeu o olhar triste de Juliane com o livro. Entendia o quanto era triste uma pessoa não saber ler e não compreendia a vida de alguém nesse estado. Queria ajudar, tinha que ajudar, mas a própria empregada se recusava.  Tinha que bolar um plano.

Nos dias seguintes, começou a ler em volta alta as histórias dos livros. Enquanto Juliane varria o quarto, Rosa declamava poesias, citava frases e até mesmo cantava versos de músicas eruditas. Começou a perseguir a jovem empregada com aquele desejo de leitura e nada poderia contê-la.

Juliane continuava o trabalho, mas atenta a tudo o que ouvia. Tinha uma boa memória e decorava tudo. Quando chegava em casa após finalizar as atividades repetia as rimas, os versos e acabou ganhando a atenção dos familiares.

Nas rodas de amigos era a primeira a falar. Ás vezes as pessoas não entendiam muito bem o que ela queria dizer, mas ela mesma não entendia muita coisa, apenas achava bonito os versos de Camões e não parava de dizer “Amor é fogo que arde sem se ver; É ferida que dói e não se sente; É um contentamento descontente;É dor que desatina sem doer...”.

Logo adquiriu fama de inteligente. Na comunidade pobre do bairro onde morava as pessoas sempre se reuniam aos finais de semana, e Juliane unia todos para que escutassem o que aprendeu durante o dia.

Ficou tão reconhecida que os boatos da jovem empregada intelectual logo chegaram aos ouvidos dos jornalistas. Choveram entrevistas, o rosto de Juliane estava na capa de todos os jornais.

Quem passou pelas bancas e viu a imagem de uma negra, no formato quase 3x4 achou logo que era alguma tragédia, roubo, assassinato ou qualquer notícia de aspecto ruim.  Afinal, as informações principais são sempre tragédias! Por que algo bom amanheceria no topo das notícias?

Assim foi o dia em que a cidade parou e conheceu a história da jovem Juliane que continuou sem saber ler, mas reconhecida pelas histórias  fascinantes dos clássicos da literatura que sabia contar.

Friday, August 19, 2011

Dica de leitura: O falecido Mattia Pascal




Ao analisar a obra literária de Luigi Pirandello o leitor se depara com uma crítica sobre a vida das pessoas controladas por si próprias ou pelas regras sociais em que vivem. Um trecho significativo compara alguns homens com marionetes, que dominadas por uma força maior - pode se ler Deus ou princípios – seguem destinos que muitas vezes não coincidem com as múltiplas facetas da personalidade de cada um.

O personagem Mattia Pascal leva uma vida infeliz ao lado da mulher e da sogra, ambas descontentes com o convívio e a realidade econômica da família. Certo dia, ao explodir de angústia, Mattia viaja sem avisar a ninguém e acaba enriquecendo em jogos de sorte.

Passados dias, ele decide retornar para casa, mas antes compra um jornal para ler as notícias da região e descobre que acharam um corpo no rio. A mulher, a sogra e um amigo próximo identificaram-no como sendo dele. 

Momentaneamente a notícia sugere liberdade. Ficaria naquela condição, não voltaria e seguiria a sua vida, sem mais dívidas, pessoas chatas atormentando-lhe. Seria um novo homem, de fato enterraria o Mattia Pascal.

Assume uma nova identidade, Adriano Meis. Busca um novo lar, mas tem medo da sua farsa. Passa tempo inventando histórias diferentes da que viveu, já que era um novo homem, tinha que ter experiências diferentes.

Se depara com infortúnios, não pode adquirir casa, nada que precise de registro, afinal legalmente está morto. Passa a conviver então, numa pensão onde se apaixona por uma jovem tímida, pressionada pelo cunhado vigarista.

Sente o contato de família, com a religião por mais cheia de farsas como se apresenta no texto, apaixona-se depois de tanto tempo vivendo infeliz ao lado da mulher que não gostava. Ao mesmo tempo é torturado pela mentira, pela ilegalidade e não pode contaminar os outros com isso.

Há momentos em que é atacado por brigas comuns e não pode fazer nada, porque é um ilegal, portanto deve aceitar calado as ofensas, agressões e até mesmo roubo.  Além disso, não pode trabalhar, não pode compartilhar histórias que todos nós temos e sempre quando há oportunidade, gostamos de contar.

A vida que seria liberdade acaba se tornando uma prisão. O peso da morte sempre o atormenta, não vive sem a sombra da ilegalidade.

Outro ponto importante no livro é a diferença entre Mattia e Adriano, ambos identidades de uma mesma mente, mas diferentes quando analisados, o que implica a complexidade do ser humano, como em certas circunstâncias somos um e ao mesmo tempo dois, senão mais.

Engraçado, como é real a o desejo do personagem de largar tudo e viver uma nova vida, mas como nunca poderíamos fazer isso, afinal nossos laços familiares, sociais e sobretudo a vivencias que construímos estão  tão entranhadas em nossa mente que não conseguiríamos deixar de lado tudo, por mais sofrível que seja, não há como esquecer o passado .

O livro é um clássico  e pode gerar em alguns o preconceito da dificuldade de leitura ou até mesmo enredos lentos, incompatíveis com os tempos atuais. Luigi Pirandello ultrapassa essas barreiras e cria uma história fantástica que ao mesmo tempo triste, tem grandes picos de humor durante a leitura. Não foram poucos os momentos em que me peguei rindo com o Falecido Mattia Pascal. 

Portanto, fica para vocês mais uma dica de leitura!

Friday, July 22, 2011

Reflexões: O retrato de Dorian Gray


O texto que escrevo hoje não é uma resenha crítica sobre a obra de Oscar Wilde, mas algumas reflexões sobre o livro que de tão fantástico instiga o leitor a querer expor todos os seus sentimentos sobre a obra.

O retrato de Dorian Gray relata a história de um jovem muito belo que ao ser pintado por um artista deseja que a velhice nunca chegue ao seu corpo, ao invés disso, a “feiura” da idade deveria encontrar sua face no quadro e não em seu físico real.

De fato, isto acontece, Dorian não envelhece, acontece o inverso. O rapaz permanece com uma beleza extraordinária e sua figura no quadro passa a adquirir as marcas do tempo, mas antes disso, ele conhece Lorde Henry, amigo do pintor Basil Hallward. É a partir desse encontro que o rapaz começa a sofrer fortes influências maléficas, Henry tem grande poder de argumentação, mas suas opiniões sempre vão de encontro ao que as pessoas pensam.

Uma de suas questões faz com que Dorian comece a ter sentimentos narcisistas. Sua beleza está acima de todos. Henry argumenta da seguinte forma: “A beleza é uma forma de genialidade, é na verdade, mais elevada que a genialidade, pois não carece de explicação. Pertence aos grandes fatos do mundo, como a luz do sol, a primavera, o reflexo das águas turvas, ou aquela concha prata a que chamamos lua. Não pode ser questionada”.



Esse pensamento nos deixa com aquela sensação de que tudo que refletimos até hoje sobre moda e beleza vão por água abaixo. Quando tive aula na universidade sobre jornalismo de moda, passei a ver o assunto com outros olhos. Antes confesso, achava tudo superficial, preocupação tola de gente que não pensa. No entanto, os estudiosos se preocupam com outros detalhes, percebem a influência da moda na sociedade, como identificar pessoas através dos trajes, como refletir sobre grupos somente pela cor, pelos símbolos que a roupa pode traduzir. Claro, não posso enumerar aqui todas as reflexões, mas são notórias quando o assunto é compreender o outro.

Mas voltando a fala de Henry, quando ele diz que a beleza é mais elevada que a genialidade porque não carece de explicação é realmente lindo. A gente sempre critica a beleza quando é direcionado ao ser humano, mas quando fazemos uma trilha, contemplamos a natureza percebemos que aquilo é lindo e não precisa ser questionado, é simplesmente belo e ponto, resta a nós apreciar a beleza e principalmente, conservá-la.

Aí é que está a questão. Por que desejamos preservar o belo da natureza e quando falamos em conservar a beleza humana achamos ruim ou ditatorial? Esse ponto me fez lembrar de uma resposta de Henry sobre isso. Ele diz que o que preocupa os idosos não é a velhice, mas a presença dos jovens.

Não estou aqui defendo a busca desenfreada pela beleza com cremes, plásticas e todos os recursos possíveis, até porque questiono muito isso. Mas, vale a pena refletir sobre o pensamento de Henry.

Os argumentos são ótimos, o livro é cheio de diálogos entre Dorian, Basil e Henry. Mas, a adoração pelo belo acaba por arruinar a vida de Dorian. Ele comete atos, é responsável pela morte de pessoas, não se culpa por isso em alguns momentos de sua vida. Para ele, ter a beleza que possui significa estar acima de todos e seja quais forem os seus atos nunca deve ser questionado por isso, afinal é tão belo que ninguém jamais pensaria nada de ruim dele.

Wilde influenciou muitas gerações pelo olhar voltado a beleza. O rock passou por grandes transformações nos anos 70, com roupas coloridas, maquiagens exageradas, tudo voltado para o excesso, como assim é Dorian, o rapaz que colocou em prática o hedonismo de Henry.

David Bowie, é um grande destaque da época, que talvez teria agrado Oscar Wilde pelo teor das letras e pela relação com a homossexualidade tão presente também no Retrato de Dorian Gray, mas de forma não detalhista.

Mas a obra não trata só de beleza, há várias questões no livro a serem refletidas como pensamentos sobre felicidade; a influência que exercemos nas pessoas; suicídio; a estética; crises de pensamento.

É realmente uma obra rica e fantástica, gostaria de fazer um texto melhor sobre o assunto, não saiu como eu gostaria, mas espero ter transmitido a vocês um pouco do que Oscar Wilde motivou em mim nesta semana.

Friday, July 15, 2011

Uma história diferente sobre Harry Potter


Hoje acontece a estreia oficial do último filme da saga Harry Potter, o chamado Relíquias da Morte parte II. O longa-metragem já é recorde de bilheteria nos EUA e acredito que não será diferente no Brasil pela fama do personagem que encanta adolescentes e também adultos.

A primeira vez que ouvi falar de Harry Potter era estudante do ensino fundamental (sou novinha gente!) e o primeiro livro sobre a pedra filosofal tinha acabado de ser lançado em 1997, mas ninguém ouvia falar muito na história.

Dois colegas meus já era fãns do personagem e começaram a inventar para nossa turminha que existia uma tal escola (referindo-se a Hogwarts) que ensinava bruxos. Eles contavam várias histórias para nós das aventuras, que já tinha visitado o local, que aprenderam várias mágicas e que conheciam três pessoas legais, chamados Harry, Hermione e Rony. Coincidência né?

Resumindo, eu sei que eles enrolaram a gente por um bom tempo, sempre com novidades sobre os “novos colegas” e só depois é que viemos descobrir que tudo não passava de relatos “roubados” dos livros da autora J.K Rowling.

Fantasia ou não, a brincadeira dos nossos amigos foi bem criativa, quem hoje em dia vai roubar histórias de livros para criar uma atmosfera diferente entre os colegas? Duvido muito. Mas, outro ponto importante da iniciativa de Lívia e Fernando (nome da dupla que mentiu para nós), foi incentivar a leitura.

Naquela época, a gente não tinha tantos livros juvenis fazendo sucesso e a escola sempre passava os clássicos da literatura para lermos, mas era tudo tão chato, não tínhamos maturidade para aquele tipo de leitura ainda, que acabávamos sem incentivo para tal atividade.

Eis que surge o tal bruxinho, e com a descoberta da história acabamos todos por acompanhar a série através dos livros. Só em 2001, que foi lançado o primeiro filme da história, mas aí já estávamos bem avançados sobre a vida de Harry.

Bom, eu acabei parando na leitura do quinto livro, porque as histórias começaram a ser tornar infantis em minha concepção, e olha que o bruxinho foi ficando adulto, hein! O fato é que as histórias não me agradavam mais e depois descobri “O mundo de Sofia” que direcionou meu hábito literário para outras vertentes.

No entanto, a saga Harry Potter não deixa de ter importância na minha vida porque foi o ponto inicial ao gosto pela leitura. Acredito que muitos jovens também tenha uma certa intimidade com livros depois que passaram a ler a história do bruxinho, o que é essencial. 

E para quem acompanha a série só tenho a desejar bom cineminha nesta sexta-feira!

Thursday, July 14, 2011

Imprensa trata escritora como bela e depois, muito depois comenta sobre obra intelectual




Quando o trabalho intelectual é proposto pelo sexo feminino à imprensa, a grande maioria sensacionalista dos repórteres insiste em relacionar produção e beleza.

É o que está acontecendo com a escritora argentina Pola Oloixarac. Não conheço seu trabalho, nem tão pouco li suas obras, mas ela tem ganhado destaque em vários meios de comunicação no país por ser bela e ...  por fim, inteligente.

Será que não dá para realizar um trabalho crítico direcionado para a atividade a qual a escritora exerce? As matérias são recheadas de assuntos pobres, não dá para saber o que de fato Pola faz em seus escritos.

No último texto que li, observe a barbaridade da reportagem: Aproveitando a deixa, o repórter pergunta à Pola sobre o novo maiô de estampa de oncinha do estilista Marc Jacobs que ela, assumidamente apaixonada por moda, declarou a uma publicação brasileira estar ansiosa para usar em Paraty.

Pola respondeu grosseiramente e com razão né?

"Claro, porque é a única coisa em que uma escritora pode pensar. Quero ir ao Brasil para ficar de biquíni todo dia, dar entrevistas de biquíni, dar palestras de biquíni. Vim para isso, era absolutamente a ideia." E arremata: "Nunca tive um biquíni. Nem de oncinha, nem Marc Jabobs. Não é verdade, eu sinto muito. Acho que vão cancelar minha participação na Flip agora que sabem que não trouxe um biquíni. Por isso não queria fazê-lo até o último momento."

Não há como não ser colocar no lugar da escritora e refletir sobre a questão da mulher na sociedade. Muitas pessoas falam que o feminismo hoje é decadente, não há necessidade de existir porque já se conquistou tudo aquilo que se pretendia, será?

Pola é o maior exemplo que posso comentar atualmente. Ela é elogiada por intelectuais sobre o livro que lançou chamado “As teorias selvagens” de difícil leitura, citações e questionamentos sociais, além de interpretações filosóficas. Bastante para alguém que é relatada nas matérias apenas como bela, não acha?

No livro “O retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde, o personagem Lorde Henry diz que a beleza verdadeira termina onde inicia a expressão intelectual. Segundo ele, o intelecto é, por si só, um modo de exagero, destrói a harmonia de qualquer rosto.

Infelizmente, discordo desta afirmação. Reconheço a beleza de Pola mas acredito que o conteúdo do seu livro seja mais importante para os leitores do que sua beleza, já que podem observá-la nas imagens do site, não é necessário comentários sobre isso.

Não estou criticando a moda, a beleza e tudo mais que é selecionado pelo público para discussão, também não estou menosprezando, mas comparando ao trabalho masculino, porque ninguém comenta então a aparência dos homens na Flip?

Não é necessário, eles são vistos como intelectuais e isto basta. E por que existe esse tratamento com as mulheres?  Mesmo quando descrevem a obra de Pola, a beleza tem que ser incluída na matéria em primeiro lugar.

A participação de escritoras no evento (Flip) já é mínima e quando se tem, o que ganha destaca não são seus trabalhos, mas o que vestem ou deixam de vestir, não dá para deixar isto para as editorias exclusivas de moda não?


Em uma reportagem da revista Marie Claire, a escritora comentou que foi alvo de insultos pela mídia quando disseram que seu livro fez sucesso porque transou com jornalistas para receber elogios.

Então, sendo mulher nada é de fato potencialmente intelectual, tudo existe por alguma chantagem, acordo, transa, beleza ou sei lá mais o quê.

É notável que o movimento feminista tem ampliado suas ações no país, principalmente com a Marcha das Vadias, mas isto não é o bastante, ainda temos que refletir bastante sobre as questões, principalmente as que tem um toque sutil ou que são vistas como “normais” pelo público.

* Obs: A Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) já terminou, esse texto era para ser postado no último dia do evento, mas acabei escrevendo sobre outros assuntos. Mas, o objetivo é criticar mesmo a imprensa brasileira em relação as matérias sobre escritoras.  





Tuesday, July 12, 2011

Reflexões sobre atividade em sala de aula e livro "O Estrangeiro"



Recentemente, freqüentei uma aula de psicologia e para que a turma se conhecesse a professora pediu que nos descrevêssemos com uma qualidade numa folha de papel.

A atividade parecia simples, mas o questionamento do eu sempre gera boas reflexões como aconteceu com o autor Albert Camus quando escreveu a obra “O estrangeiro”.

O livro trata de um homem indiferente ao mundo, desprovido de emoções que ao perder a mãe não chora nem se comove com o fato. Para nossa sociedade a atitude de Mersault, como assim é chamado, é um absurdo. Como não chorar por aquela que lhe deu a vida?

Mas o personagem é sincero, não sente vontade de chorar, não sofre por isso e não quer fingir um sentimento.  Assim como, quando a companheira lhe pergunta se a ama, ele responde que não, mas que isto não faz diferença.

No entanto, o valor moral da sociedade pesa sobre grandes decisões. Em um momento do livro, Mersault mata um árabe simplesmente pelo forte sol que se faz presente na praia. O instinto de agressão e ódio lhe faz, por um momento, agir e ter reação em relação ao mundo, mas parece que este não foi o momento certo para o rapaz expressar-se.

O personagem é preso, mas o julgamento do caso acaba direcionando-se mais para a frieza de Mersault em relação à morte da mãe, do que com o assassinato do próprio árabe.

O estrangeiro, o título do livro se refere ao próprio rapaz que se configura como um homem estranho a espécie humana, ou seja estrangeiro. Somente no julgamento, é que ele pode refletir quem ele é, com a opinião dos outros a seu respeito, mesmo que isto seja sua condenação á morte.

Ao ler esta obra fantástica, o leitor se depara com o absurdo das situações e o sentimento de revolta pelo que se espera do outro, culturalmente e socialmente falando.

Mas, voltando ao assunto da aula, quando paramos para analisar sobre nós mesmos, forçadamente pela professora,observo o quão complicado isto pode ser, não acha?

Eu me descrevo da forma que acho melhor, mas quase sempre faço de modo que seja complacente com que as pessoas esperam de mim.  Digo isso, porque se me qualificasse como, indiferente ou outro adjetivo qualquer e incomum, o que a professora e os alunos diriam?

A gente sempre está pensando no que as pessoas vão falar de nós e por isso temos que agir como esperam que um ser humano “normal” aja perante a sociedade, mesmo que para isso fingir seja a arma principal.

O estrangeiro me comoveu porque a linguagem seca do autor faz com que nós analisemos a vida do personagem de forma complexa. Nós percebemos a indiferença do rapaz com o mundo, mas a verdade no ser daquele jeito. Mersault não é uma pessoa ruim por não chorar ou por matar alguém sem motivo, ele apenas é assim e não finge ser “melhor” para os outros.

Durante a aula, uma garota disse que nunca pensou em quem ela era. Percebia-se visivelmente a dificuldade que tinha em se descrever.

Eu busquei o adjetivo mais simples para responder logo a questão, mas considero a atividade complexo e impossível de se resolver em simples minutos. No entanto, para uma breve apresentação, dizer que sou isto, ou aquilo e ponto final, basta.

No final do semestre, todos vão avaliar se aquilo que disseram é realmente verdade, e aí será avaliada a verdade dos fatos, se cada um descreveu a si mesmo como uma farsa que pode ser analisada como absurdo e gerar revolta, ou como simples sujeito da verdade.

Monday, July 11, 2011

Escritor x Blog : relação que não pode existir?



Depois de ler a reportagem do G1 sobre James Ellroy, autor americano de inúmeros sucessos como Dália Negra, fiquei abismada como algumas pessoas tem opiniões, estranhas, digamos assim.

Segundo ele, hoje em dia todos se acham escritores porque possuem blogs. Bom, se o conteúdo do site é relevante e há público que se interesse pelos textos, porque não denominá-lo como escritor?  Mesmo que pratique a atividade somente nas horas vagas, acredito que haja bons profissionais utilizando a ferramenta blog. Afinal, escrever não exige mais o papel, basta um computador e pronto, está feito.

Mas, claro existe a diferença de bons profissionais e apenas amadores. O leitor é exigente e sabe quando o escritor é bom e tem talento, pois costuma a voltar ao site. Ao contrário do que pensa Ellroy quando diz: "Hoje todos se acham escritores: 'Oh, eu tenho um blog!' – dane-se você!"

Vou citar um exemplo... Eu sempre gostei de ler blogs e em 2006, um em particular me chamou atenção, foi o Escreva Lola Escreva. A blogueira escreve sobre tudo, desde textos bem humorados até críticas ferrenhas ao machismo. Sua maneira de analisar o mundo é tão fantástica que nunca mais deixei de acessar o blog, tornou-se um vício e até hoje costumo visitar a página.

E você acha que não a considero escritora? Claro que sim! Ela sabe expor suas opiniões de maneira clara, objetiva e não há porque não classificá-la como tal.

Eu posso tentar entender o Ellroy quando ele fala sobre esse assunto, talvez o escritor queira manter num nível inalcançável à função que desempenha. Sabe os clássicos? Que ninguém pode questionar ou até mesmo não gostar? Pois é, Ellroy me faz pensar dessa forma. Então, escritor só é escritor quando faz sucesso e é bem apontado pela crítica e por intelectuais.

Eu não concordo com isso e acredito que classificar os autores desta forma é prejudicial. Hoje, temos a juventude que não dá tanto valor assim para leitura e ainda vem um escritor e fala uma besteira dessas, é para desestimular, não é?

O blog é um sistema interessante porque dá oportunidade para os anônimos publicarem aquilo que pensam sem precisar da avaliação de grandes editoras. É uma forma de tornar público aquilo que antes era restrito e isto é digno de aplausos.

Por isso senti a vontade de desabafar sobre a fala de Ellroy, pois quanto mais gente estiver escrevendo e gostando disso, mais é estimulada a prática da escrita e da leitura, pontos fundamentais, acredito, para a formação intelectual do ser humano.
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