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Wednesday, July 2, 2008

Por de trás das aparências... A vida de um trabalhador




Fábio Bruno, ao longo da semana, trabalha 12 horas diárias numa clínica de diagnósticos de Feira de Santana. Sentado em frente ao computador, ele faz exames de variados tipos como tomografia e ressonância. Vestido sempre de trajes brancos, aparência limpa, ninguém diria que por trás dessa descrição tem escondido um grande guitarrista fanático por música.

Mas a primeira pergunta a passar pela cabeça de muitas pessoas nesse momento seria: O que um guitarrista tem a ver com uma clinica médica? Certamente seria uma pergunta difícil de ser respondida, mas, como definiu Bruno “a presença de um filho na vida de uma pessoa provoca alterações tamanhas. O peso dessa responsabilidade chegou em minha vida quando eu tinha apenas 21 anos. Tinha que priorizar o mais importante para mim, e a guitarra ficou sendo um instrumento de descanso e não de sustento”.

Bruno tentou transferir para sua realidade um meio concreto de sustentar sua família, e percebeu que a música não estava mais em seus planos para o futuro. Refletindo sobre a situação, quando ainda morava na casa dos pais com sua esposa e filho, ele é abordado por um amigo que vem trazer-lhe uma noticia que mudaria todo o percurso de sua vida. Este trazia a notícia de um curso de Radiologia. Era a chance para um futuro, mesmo que fosse incrédulo naquele momento quanto a ele.

Arranjou o dinheiro da matricula, foi até a casa do amigo para os dois irem se inscrever, mas o rapaz acabou desistindo. Bruno não. Persistiu, estudou durante dois anos. Neste curso conheceu um rapaz chamado Maia, este tinha contatos com uma clínica de imagens famosa em Feira de Santana, os dois concluíram o curso juntos, Maia começou a estagiar nesta clínica e prometeu ajudar Bruno a conseguir pelo menos um estágio também no mesmo lugar.

Quatro vezes Bruno foi até a clínica conversar com o médico diretor do centro para estagiar, mas este não o atendia, estava sempre ocupado. Na quinta vez em que Bruno insistentemente apareceu por lá, deixou uma carta muito bem elaborada, relatando as vantagens que a clínica teria tendo ele como um novo participante da equipe. Foi esta a carta que fez Bruno conseguir o seu primeiro emprego, onde até hoje trabalha.

Agora com um trabalho fixo, o lado musical de sua vida poderia retornar. Em casa, tocava todos os dias guitarra e continuava na antiga banda que se chamava Loucos de Plantão. Bruno e os integrantes ensaiavam pelo menos uma vez por semana. Além de tocar guitarra, ele cantava e compunha varias músicas para o primeiro CD demo da banda chamado “Mente vazia moradia do cão”. Reconhecido por suas letras de afronta ao sistema, as contradições sociais existentes no Brasil, Bruno não deixou de lado o que mais lhe agradava que era o meio musical e as letras de protesto.
Aos 26 anos separa-se. Enfrenta os problemas de uma vida conjugal e resolve morar sozinho. A Loucos de Plantão depois de alguns anos em atividade chega ao fim. Porém Bruno já tinha dado início a um novo projeto chamado Atack Sonoro. A banda composta por ele, e mais duas pessoas começa a ensaiar. Bruno agora era o líder do grupo, cantava, tocava guitarra e compunha todas as músicas. Fez alguns shows em Feira de Santana, e também tocou na primeira calourada da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia em 2007 que aconteceu em São Félix, retornando novamente ao recôncavo numa festa de Halloween em Cachoeira no final do mesmo ano.

O guitarrista e técnico de Radiologia também relata outra parte de sua história composta por um novo talento até em tão desconhecido por nós. Além das habilidades já citadas, Bruno na adolescência praticava futebol. Aparentemente um esporte comum para a maioria dos jovens brasileiros que jogam sem o compromisso de ter aquela prática como carreira. Com Bruno foi diferente. Ele jogava sempre como lateral direito, e como não tinha grandes responsabilidades e ainda não trabalhava passava a maior parte do tempo jogando na rua onde morava. Aos 18 é convidado a jogar no Paraná pelo time de futebol Matsubara. “Jogar num time profissional era o sonho de qualquer menino que amava o futebol” comenta Bruno. Mas a proposta veio um pouco tarde. Para viajar era preciso que ele falsificasse os documentos para diminuir sua idade em três anos. Porém essa decisão não foi efetuada e nem aprovada pelos pais de Bruno. Depois dessa situação ele decidiu parar de jogar e de fato nunca mais pisou num gramado com o intuito de ser um profissional como pensava antes.

Conta Mateus Freitas, melhor amigo de Bruno que além de jogador, ele tinha uma outra vocação, a de estar sempre metido em confusões “Teve um dia em que nós fomos pra Valença, e ele beijou uma menina que já tinha um namorado. O rapaz ficou sabendo do caso e perguntou na nossa frente: Quem é o rapaz de Feira que ficou com minha namorada? Sabe o que Bruno respondeu? Disse que fui eu. Depois eu que fiquei com fama de roubar namoradas na cidade. Ou seja, tive que defendê-lo, não pude fazer nada, porque ele era pequeno, o rapaz grande. Então tive que ir ao lugar dele brigar com o rapaz” relembra Freitas.

O técnico de Radiologia jamais pensou que o seu percurso fosse fixar-se no estágio que hoje se encontra. “Eu, como técnico? Isso nunca passou pela minha mente”, afirma Bruno que traduz hoje, sua vida, como um conjunto de transformações sem um projeto ou meta definido e ainda confirma: “Eu apenas fui fazendo, não programei as ações, elas simplesmente aconteceram e eu as aproveitei”.


Ilani Silva
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