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Friday, August 26, 2011

Depende da hora e da cor


 

O liquido vermelho brota sem parar. Não há controle, jorra como fonte inesgotável de água e nem a mais poderosa força mental consegue freá-lo. Tentamos esconder, calar o assunto, mas todo mês o tema vira alvo principal como o rei de uma simples partida de xadrez.

Nojo, insatisfação regada a mau humor e dores insuportáveis, assim pode-se descrever alguns períodos do ano. Mas hoje, felizmente hoje, quando por descuido, gostas escorreram pelo chão, vi a cor vibrante gritando, se isto não é poesia, não sei mais o que poderia surgir do rubor da alma.

O chão branco e alvo como filtro solar foi manchado de vermelho, cor que sai das entranhas sem química, mistura ou fórmula de produção brilhava e eu senti um pedaço de mim transfigurado, porém vivo, em chamas.
Não queria tirá-lo de lá, era arte, o plano tornou-se tela e o pincel composto de pequenos cílios pingava gota a gota a cor mais bonita do mundo. Pollock demorou anos até descobrir o dripping e nós mulheres já viemos com o dom da técnica de pintura, quem sabe presente da natureza?

 Ninguém conseguiria desvendar a imagem. É o tipo de pintura que denominamos abstrata. Diferente do artista que compõem traços para a eternidade, nós temos limitações e depois de algum tempo, o tom não é mais o mesmo, escurece e aos poucos uma parte de mim morre, de encontro ao chão, fim da transcendência artística.

Que saibamos aproveitar cada segundo desse belíssimo momento e observar o vermelho dentro de si, não com a agonia de um iniciante, mas com o prazer de uma velha artista experiente que degusta o tempo finito de sua arte.

Monday, August 15, 2011

Encontro sem cor providencie a loucura



O jantar estava marcado para as 20h. Recebi algumas ligações de amigos convidando-me para um reencontro, nada que me fizesse sair de casa ás pressas, mas também não queria me atrasar.  

Olhei-me no espelho, um rosto sem graça sorria para mim. Dei cores aquela face com os kits de beleza femininos, ficou melhor, talvez disfarçasse os meus reais sentimentos.  Coloquei alguns itens na bolsa, caso a máscara desmanchasse e segui em direção ao lugar.

Lá estavam todos eles, o João, Pedro, a Raquel e Elisa sentados no centro do restaurante mais sofisticado da cidade. Já haviam pedido bebidas, o cheiro de vinho exalava no ambiente, e não pude deixar de notar o rosto rosado e tímido de Raquel. Abracei a todos, mas ela estava divina, mudou bastante desde a última vez em que nos vimos.

Todos se sentaram à mesa e começamos a resgatar assuntos do passado. Risos, risos e mais risos. Sentiam-me como se meu corpo estivesse ali parado, intacto sem vontade nenhuma de fazer movimentos, já minha alma estava no restaurante a vagar.

Estava segurando uma taça de vinho. Percebi um grupo na mesa ao lado, composto por três mulheres e um homem. O rapaz era loiro, de olhos azuis e falava de um modo estranho. Concentrei-me para ouvir o que dizia, mas não entendi. Acho que era estrangeiro.  Eles pareciam contentes como a chegada de uma boa notícia. Senti inveja. Sorri.

Raquel reparou na minha posição, continuava com a taça de vinho no mesmo lugar e perguntou se eu estava me sentindo bem. Lembro que ouvi a voz distante, e percebi que minha alma estava quase atravessando a avenida. Como num estalar de dedos, eu chamei a sua atenção, ela voltou ao lugar de origem e respondi que estava bem.

A conversa do meu grupo foi parar nos tempos da escola. Novamente, o assunto não agradou e olhei para o lado esquerdo da mesa. Duas mulheres elegantes, de gestos comportados conversavam timidamente. Talvez fosse um casal.  Tentei ouvir o som daqueles lábios, mas nada chegava aos meus ouvidos. Continuei olhando e uma delas apertou a mão da outra. Gostei da imagem e acabei pressionando a taça de vinho que segurava, ela quebrou em minhas mãos.

Raquel levantou assustada e veio me ajudar. Eu estava sangrando e sorrindo. Todos ficaram preocupados com o meu estado, o garçom me deu um lenço, o casal olhava para mim, ainda segurando a mão uma da outra.

Acredito que a minha alma ainda estava a vagar. Com gestos lentos, levantei da mesa quase que carregada e fui em direção ao banheiro lavar o corte. Os pingos vermelhos coloriram o chão do restaurante. Ficou bonito, me senti feliz.

Raquel me apertava contra o seu corpo, preocupada e eu gostando da situação. Quando a água jorrou sobre a ferida senti um calor estranho que me sufocou. O vermelho estava quase estancado, mas eu gostava do vermelho. Raquel estava de vermelho.

O sangue parou e aquela falta de ânimo novamente se apoderou de mim. Percebi que o meu rosto estava pálido e as cores já não sobressaiam mais. Raquel continuou me ajudando, mas nem seu vestido tinha mais o mesmo tom.

Voltamos para a mesa, o casal já tinha ido embora, o estrangeiro não escondia a felicidade e meus amigos estavam assustados. A imagem não era bonita, faltava vermelho.

 Lembrei que tinha colocado o batom na bolsa, imediatamente peguei. Contornei os meus lábios, os de Raquel, uma nova taça de vinho, a mesa, o chão.

Meus amigos impediram mais riscos, o restaurante inteiro olhava a minha obra de arte, deveriam agradecer, agora sim tudo tinha cor de paixão, o clima estava perfeito para os casais apaixonados.

Tentei beijar Raquel, fui empurrada. O estrangeiro sorriu novamente, mas agora tinha explicação. O gerente do restaurante queria me retirar do local, eu pintei sua roupa branca de vermelho, não com o batom, mas com o sangue que tinha voltado a sair da minha mão.

Não entendia porque as pessoas não compreendiam a arte, a cor, o vermelho a vida. Chorei angustiada e peguei um táxi para casa, nem me despedi de Raquel, talvez nunca mais a veja.

No meu apartamento, vi cores, admirei a vida, minha alma não precisava vagar, eu estava em mim e me diverti assim mesmo, sozinha.

Thursday, June 16, 2011

Como lidar com as mudanças?



Semana passada tomei uma das decisões mais difíceis da minha vida. Deixei o emprego. Já trabalhava na empresa há mais de cinco meses, mas tenho outros planos para mim e decidi fazer isso logo que pudesse.
É impressionante como me apego as pessoas facilmente, o pouco tempo que convivi com os profissionais que lá atuavam também, me deixou saudades. A despedida foi a pior parte, eu nunca gostei desse momento, sou emotiva, choro horrores...

Lembro que quando era mais nova, passava férias com a minha melhor amiga em Salvador, quando o período terminava e tinha que voltar a Feira de Santana novamente, uma dor insuportável tomava conta de mim, não conseguia falar, as lágrimas diziam tudo.

Ontem foi assim... as lágrimas novamente gritavam, gritavam bem alto, e ainda achei companheiros para compartilhar, pronto, o coração não agüentou.

Passando este momento, acordei hoje e me senti estranha em não ter que levantar cedo, em não ter que ir direto para o computador, ouvir o rádio. Nada disso foi necessário hoje, mas já fazia parte da minha vida rotineira.

Como lidar com isso? Não sei... vou tentar ser forte e superar porque em breve já estarei atuando em uma área totalmente diferente da que me formei. Só espero que tenha tomado a decisão correta e não me arrependa no futuro.
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