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Monday, August 15, 2011

Encontro sem cor providencie a loucura



O jantar estava marcado para as 20h. Recebi algumas ligações de amigos convidando-me para um reencontro, nada que me fizesse sair de casa ás pressas, mas também não queria me atrasar.  

Olhei-me no espelho, um rosto sem graça sorria para mim. Dei cores aquela face com os kits de beleza femininos, ficou melhor, talvez disfarçasse os meus reais sentimentos.  Coloquei alguns itens na bolsa, caso a máscara desmanchasse e segui em direção ao lugar.

Lá estavam todos eles, o João, Pedro, a Raquel e Elisa sentados no centro do restaurante mais sofisticado da cidade. Já haviam pedido bebidas, o cheiro de vinho exalava no ambiente, e não pude deixar de notar o rosto rosado e tímido de Raquel. Abracei a todos, mas ela estava divina, mudou bastante desde a última vez em que nos vimos.

Todos se sentaram à mesa e começamos a resgatar assuntos do passado. Risos, risos e mais risos. Sentiam-me como se meu corpo estivesse ali parado, intacto sem vontade nenhuma de fazer movimentos, já minha alma estava no restaurante a vagar.

Estava segurando uma taça de vinho. Percebi um grupo na mesa ao lado, composto por três mulheres e um homem. O rapaz era loiro, de olhos azuis e falava de um modo estranho. Concentrei-me para ouvir o que dizia, mas não entendi. Acho que era estrangeiro.  Eles pareciam contentes como a chegada de uma boa notícia. Senti inveja. Sorri.

Raquel reparou na minha posição, continuava com a taça de vinho no mesmo lugar e perguntou se eu estava me sentindo bem. Lembro que ouvi a voz distante, e percebi que minha alma estava quase atravessando a avenida. Como num estalar de dedos, eu chamei a sua atenção, ela voltou ao lugar de origem e respondi que estava bem.

A conversa do meu grupo foi parar nos tempos da escola. Novamente, o assunto não agradou e olhei para o lado esquerdo da mesa. Duas mulheres elegantes, de gestos comportados conversavam timidamente. Talvez fosse um casal.  Tentei ouvir o som daqueles lábios, mas nada chegava aos meus ouvidos. Continuei olhando e uma delas apertou a mão da outra. Gostei da imagem e acabei pressionando a taça de vinho que segurava, ela quebrou em minhas mãos.

Raquel levantou assustada e veio me ajudar. Eu estava sangrando e sorrindo. Todos ficaram preocupados com o meu estado, o garçom me deu um lenço, o casal olhava para mim, ainda segurando a mão uma da outra.

Acredito que a minha alma ainda estava a vagar. Com gestos lentos, levantei da mesa quase que carregada e fui em direção ao banheiro lavar o corte. Os pingos vermelhos coloriram o chão do restaurante. Ficou bonito, me senti feliz.

Raquel me apertava contra o seu corpo, preocupada e eu gostando da situação. Quando a água jorrou sobre a ferida senti um calor estranho que me sufocou. O vermelho estava quase estancado, mas eu gostava do vermelho. Raquel estava de vermelho.

O sangue parou e aquela falta de ânimo novamente se apoderou de mim. Percebi que o meu rosto estava pálido e as cores já não sobressaiam mais. Raquel continuou me ajudando, mas nem seu vestido tinha mais o mesmo tom.

Voltamos para a mesa, o casal já tinha ido embora, o estrangeiro não escondia a felicidade e meus amigos estavam assustados. A imagem não era bonita, faltava vermelho.

 Lembrei que tinha colocado o batom na bolsa, imediatamente peguei. Contornei os meus lábios, os de Raquel, uma nova taça de vinho, a mesa, o chão.

Meus amigos impediram mais riscos, o restaurante inteiro olhava a minha obra de arte, deveriam agradecer, agora sim tudo tinha cor de paixão, o clima estava perfeito para os casais apaixonados.

Tentei beijar Raquel, fui empurrada. O estrangeiro sorriu novamente, mas agora tinha explicação. O gerente do restaurante queria me retirar do local, eu pintei sua roupa branca de vermelho, não com o batom, mas com o sangue que tinha voltado a sair da minha mão.

Não entendia porque as pessoas não compreendiam a arte, a cor, o vermelho a vida. Chorei angustiada e peguei um táxi para casa, nem me despedi de Raquel, talvez nunca mais a veja.

No meu apartamento, vi cores, admirei a vida, minha alma não precisava vagar, eu estava em mim e me diverti assim mesmo, sozinha.

Thursday, August 4, 2011

A arte de amar nos tempos das redes sociais


Após achar que tinha encontrado o amor de sua vida, Marcela correu para o computador em busca do perfil no Orkut do tão sonhado amado.

Vasculhou todas as comunidades e decifrou do gosto musical aos filmes prediletos do rapaz, frases que marcaram sua trajetória e até mesmo aspectos de religião.

É verdade que tinham conversado pouco no primeiro encontro, timidez e falta de tempo eram palavras que poderiam justificar o problema, mas a situação era diferente, eles não sabiam dar continuidade a um diálogo, por isso foram para casa mais cedo do que o previsto.

Trocaram MSN e só. Curiosa, Marcela foi além, quero dizer, para o Orkut e “conheceu” Pablício.
Segundo encontro. O tema era música, ela mostrou certo conhecimento no estilo predileto do rapaz após pesquisa rápida na Wikipédia. Até visualizou uns vídeos no Youtube, mas nada que lhe agradasse de fato.


Ele fez uns comentários bobos e mudou de assunto, optou por novela. Marcela não tinha visto nada em seu Orkut sobre novela e para dizer a verdade, não era parte da audiência desses veículos. Ficou transtornada, não sabia falar sobre o romance de Norma e Léo, nem sobre o tal Cordel Encantado.

Decepcionada, fingiu passar mal e foi para casa. Novamente, o encontro durou pouco e percebeu que de fato não conhecia Pablício. Isso deixava a garota angustiada porque gostaria de saber tudo sobre o rapaz e, no entanto, o perfil na internet não mostrava tudo.

Diferente dos romances antigos, em que decifrar pouco a pouco a personalidade de cada um fazia do namoro algo incrível, a trajetória de Marcela e Pablício exemplifica alguns dos relacionamentos atuais em que pouco se fala e tudo provém das redes sociais.

Cada um tem um Google de si, seja em blogs, Facebook, Orkut, Twitter e o que mais vier. Se isso é bom, talvez...quem sabe impeça de cometer mancadas absurdas como falar do Timão para alguém que é torcedor fanático do Palmeiras.

Por outro lado, não é tão ruim errar, argumentar gostos, ter conversas sem prévios conhecimentos que podem ser até falsos, como personagens que a gente mesmo cria no Orkut e tal.  

Marcela decidiu não mais encontrar Pablício. Descobriu que ele não fazia o seu tipo por causa do tema novela. E Pablício acostumado a paquerar um número generoso de meninas por semana, nem ligou para o sumiço de Marcela.
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